(COMO) FICAR SOZINHO

Como as antigas chinesas, minutos a sós debaixo d’água caçando pérolas, há um ganho em se mergulhar fundo no próprio mundo interno. Há um ganho em se estar sozinho. Sozinho, digo, sem ninguém à volta — independente de ter namorados, família, ou 6 flatmates. 
Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções. 
E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. E nos atravessa, preenche, assombra – como pérolas, nos encanta. Como se sentir só depois desse encontro?

Crédito foto: Iwase Yoshiyuki| Fonte: ideiafixa.com

Nas aldeias costeiras da China, por cerca de 2.000 anos, mulheres mergulhavam no fundo do Pacífico quase nuas em pelo, com apenas uma máscara e nadadeiras. As águas eram gélidas e as meninas (como sempre, treinadas bem cedo), ficavam minutos debaixo d’água, repetindo o mergulho mais de 50 vezes por dia. Não vou encher essa página de fotos lindas de chinesas de topless; mas há que se admirar a capacidade respiratória, o foco e a dedicação de quem consegue suportar o que é delicioso por breves instantes e, em questão de segundos, vira tortura: o mergulho.

Tortura ou prazer, eu não conseguiria viver sem treinar meus pulmões para aguentarem o máximo que puderem esse momento único, em que a pele é a nossa única fronteira com o azul. Nada se ouve além do murmurejar das águas (ou o bater do nosso coração?) e ficamos livres da gravidade, sociedade e outras amarras, inteiros com nós mesmos. Plenos.  Não estou fazendo aulas de mergulho nem de natação. Estou falando de ficar sozinha, num espaço que te envolve e separa da Terra. Como o fundo do mar. Ou debaixo d’água, perto da superfície, onde vemos o mundo externo por um prisma próprio, onde ele é que parece irreal.

Por voltas da vida, sempre passei muito tempo só. Só, digo, sem ninguém fisicamente à volta — independente de ter alguém pra chamar de meu amor ou de viver numa casa com 6, 7 flatmates. Mesmo numa relação, sempre a insônia me puxa da cama para momentos de plenitude comigo. Ou nos transportes públicos. Ou simplesmente ao andar de fones de ouvidos na rua.  Ou ao abrir um caderno e escrever.

A verdade é que gosto da solidão. Preciso. Adoro estar com pessoas — amigos e/ ou grupos grandes animados, com gente falando alto, bebendo, dançando. Adoro carnaval. Sou tímida, mas isso é característica pessoal, não diagnóstico. Adoro estar em grupo, mas poucas vezes esses momentos me preenchem tanto quanto aqueles em que estou eu comigo, meu caderno e meu mundo interno. Sem ninguém para furar nossa bolha e esvair sua atmosfera de endorfina. Um mundo interno amplo, livre, confortável como um cobertor quentinho de opioides, benzodiazepinas. Ou, por vezes, doloroso como um colchão de pregos. Mas intenso. Genuíno. Vivo.

Talvez algumas pessoas tenham uma tolerância maior à solidão. Eu aguento bem. Ou talvez precise. Porque há um ganho em se estar sozinho. Subestimado, mas está ali. Eu percebo. E devo ter percebido desde jovem, porque é nessa ficha que tenho investido minhas economias. Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções. E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. E nos atravessa, preenche, assombra – como pérolas, nos encanta. Não acontece toda hora, não há a menor certeza de que irá acontecer; é como um eclipse, meio raro. Mas depois que se vive esse encontro, fica difícil não esperar por ele. Porque essa espera alimenta qualquer vazio, vai colorindo de significado o silêncio, povoando as manhãs preguiçosas, as tardes lentas, o por do sol que nunca mais.  É tentador trocar qualquer experiência externa por esse mergulho num submerso mundo de isolamento. Mas há um tempo limite.  E condições limitantes também.

Não se mergulha em mar revolto ou quando há tempestade, embora, muitas vezes, as águas ainda pareçam o único refúgio. É preciso cuidado. É preciso lembrar dos que ficaram ali presos, pra sempre; é preciso saber voltar. Quando há alguém (companheiro(a), família, o que for) que se ama à nossa espera aqui do lado de fora, é mais fácil vir à tona. Com pérolas e pedras brilhantes, os olhos cheios de histórias para partilhar. Mas repito. É preciso saber voltar.

Publicado originalmente em: https://medium.com/@cristinaparga
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SER ESTRANGEIRO AQUI, ALI – EM QUALQUER LUGAR

Ser estrangeiro é perder restos de bagagem pelo caminho – coisas que só percebemos quando voltamos. Mas, ao mesmo tempo, é ter sempre olhos de criança que acabou de chegar – e, por isso, até uma flor descuidada crescendo sem sentido no asfalto nos prende, até as árvores e seus galhos riscando desenhos contra o horizonte nos encanta. E é aí que se entende que dividir o peito em duas, três, quatro cidades pode até doer – mas vale muito a pena. É aí que se entende que, quando se perde uma cidade, um país, um amor – está-se sempre ganhando. Memórias. História. Intensidade e profundidade no sentir.

Como seria para você estar num lugar onde você não é ninguém? Onde você não tem amigos nem tribo – onde as tuas roupas, os teus livros, filmes, músicas, o teu corte de cabelo etc não significam nada a priori – onde não são símbolos socialmente reconhecíveis. Como seria para você responder todos os dias a perguntar “Como você se chama?” e ouvir o teu nome ecoando vazio de sentido nas bocas que se engasgam ao tentar pronunciá-lo?

Quando eu era pequena, meu pai, que mudou de nacionalidade à força aos 2 anos de idade, me disse que morar fora era como ter o pé esquerdo num país e o direito no outro – e a cabeça no oceano. Para imigrantes pobres, vindos de uma Europa sem oportunidades no pós segunda guerra, crescer era sobreviver entre restos de naufrágio. Era ir para escola e ser sempre conhecido pelo país de origem, não pelo nome próprio. Era comemorar aniversários só com bolos, sem presentes, como os que recebiam as crianças vizinhas. Assistir aos pais fazendo apenas o percurso casa-trabalho, juntando, dia após dia, notas, moedas, latas de comida na despensa, como se à espera de um terremoto, como se à espera da próxima guerra, da próxima vaga de fome. Fechados em suas salas em seus almoços e jantares sempre iguais – sopa, massa, galinha criada no quintal – eles tentavam ser autossuficientes. No fundo, eram autoabsorvidos. Como se não pudessem contar com nada além de si próprios na terra estranha em que aportaram.

Ao contrário do meu pai, escolhi ser estrangeira. Decidi sozinha imigrar. Não pela fome, pela guerra, mas pelo motivo que move qualquer jovem de classe média alta desse Brasil cosmopolita: a sede de aventura. A vontade de se jogar, conhecer pessoas novas, sotaques estranhos, viver o mundo em sua plenitude. Crescemos com tv a cabo e internet e sabemos desde criança – o mundo é muito maior do que a nossa cidade e suas referências. A gente parte com fome de novidade – e entramos no avião sorrindo, passaporte na mão e peito aberto para o que vier pela frente, sem olhar para trás. No início parecia uma grande aventura – 18 anos sozinha num país estranho, onde ninguém sabia meu nome, origem social, a escola onde eu estudei e todos os outros símbolos que nos definem. Era plena liberdade. Eu podia ser quem eu quisesse, na época da vida em que ainda estamos tentando descobrir quem queremos ser. Uma experiência indescritível.

Mas os anos foram passando.

E eu continuava estrangeira.

Com o passar dos anos, aumentavam as despedidas: amigos – irmãos partiam do nada para outro canto do mundo, namoros eram rompidos pela distância, sorrisos embaçavam-se em fotos antigas com pessoas que já não sabia (algumas nem sei) para que parte do mundo iam. Só ter radares, sem raízes, começou a ser cada dia mais difícil.

E me vi como meus avós – comendo tofu com coca-cola zero, como se não pudesse contar com nada de substancial naquela Terra que, sem grandes amigos, sem família, virou estranha. Reunindo lembranças, rabiscos e sonhos, como se à espera do próximo terremoto – como se meu mundo interno subterrâneo fosse a única terra firme. Mesmo sendo solo vulcânico.

Dez anos depois, voltei para casa. Que casa? Meu país natal não me recebe. Não reconhece minhas expressões, zomba dos meus deslizes no sotaque, ri da falta que sinto dos recantos, parques e jardins escondidos que eu tanto amava – ri da minha cara com seus gigantescos pontos turísticos. De repente tenho que começar tudo de novo – sozinha.

Abro o caderno e encontro um poema da argentina Alejandra Pizarnik.

Extraño desacostumbrarme de la hora en que nací. Extraño no ejercer más oficio de recién llegada.

Para quem deixa o país natal por muitos anos, nunca se deixa de exercer esse ofício. Esse olhar de quem não tem pouso certo, endereço definido, lugar físico suficiente para reter tantas lembranças.

Ser estrangeiro é perder restos de bagagem pelo caminho – coisas que só percebemos quando voltamos. Mas, ao mesmo tempo, é ter sempre olhos de criança que acabou de chegar – e, por isso, até uma flor descuidada crescendo sem sentido no asfalto nos prende, até as árvores e seus galhos riscando desenhos contra o horizonte nos encanta. E é aí que se entende que dividir o peito em duas, três, quatro cidades pode até doer – mas vale muito a pena. É aí que se entende que, quando se perde uma cidade, um país, um amor – está-se sempre ganhando. Memórias. História. Vida, intensidade e profundidade no sentir.

E é aí que a gente percebe que, por mais que não se tenha pouso fixo, por mais que se tenha perdido tanto ao longo da estrada, o coração guarda todas as memórias. E que não há carro, apartamento, emprego, dinheiro que compre esse olhar que se deixa encantar por tudo que parece novo no que devia ser habitual. E que sim, é possível – e é preciso – tentar ser estrangeiro mesmo no próprio país – para ver sem filtros e preconceitos o outro, para se deixar tocar pela sensação de estranhamento e encantamento – e se apaixonar, a cada dia, por novas tonalidades no por do sol do mesmo horizonte.

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Depressão: quando o demônio não é tão feio assim

“Com depressão, você não pensa que pôs um véu cinza e vê o mundo através da névoa do mau humor. Pensa que retiraram o véu da felicidade, e que agora você vê de verdade” – diz Andrew Solomon, em “O demônio do meio-dia”. O que ninguém fala, pois dessa doença não se fala – é o que o feio demônio pode revelar sobre nós. Ele nos recorda que somos frágeis, humanos. Nos obriga a sair da roda de hamster de produção e consumo e repensar no que realmente desejamos. E pode trazer à tona recursos internos submersos – e preciosos.

A depressão é o segredo de toda família – Andrew Solomon diz, em O demônio do meio-dia. Ninguém quer falar sobre o tema – ou, quando falam ou escrevem, geralmente é com uma aura de romantização, que só dificulta o entendimento deste distúrbio mental sério, que pode levar à morte.

Sim, à morte. Ao suicídio – outro tabu: parece que, ao sair da nossa boca, essa palavra contamina todo o ar, gerando uma epidemia de “negatividade”, para os mais esotéricos, ou de “problemas”, para os mais pragmáticos.

Nesse mundo de relações líquidas, trabalhos alienantes e uma cobrança crescente pela produtividade e sucesso em todas as esferas – familiar, profissional, social e até corporal– não conseguir funcionar é quase uma afronta. Uma rebelião. E isso incomoda quem está funcionando direitinho no esquema montado e por isso não quer pensar, não quer se questionar. Afinal, vai que todo o castelo de cartas da autoimagem de sucesso desmorone?

Dá para entender porque o deprimido afasta tanta gente. Afinal, ele já quer ficar sozinho mesmo – já entendeu que não há nada nem ninguém do lado de fora que possa mudar o que ele sente por dentro. Não tem muito a partilhar com os amigos – ou então, tem coisas DEMAIS a partilhar. Coisas que incomodam.

Incomodam e pesam no outro – seja pela sensação de impotência e frustração por não conseguir “consertar” o problema (leia-se, a pessoa), seja por ser assustador, ou, no fundo, por ser um convite sutil a parar e refletir sobre a própria vida, sobre as próprias escolhas. O que, convenhamos, não é todo mundo que tem tempo (ou coragem) para encarar.

Por isso, se você não consegue ter empatia, se tem medo de ouvir e falta de paciência para decifrar o que o deprimido tenta balbuciar, tudo bem – é o seu direito. Mas o mínimo que alguém que mergulha em alto mar bravio e escuro, sem âncoras ou faróis merece, de todos nós – da sociedade como um todo – é respeito. Eu diria também amor e compaixão, mas nem todos têm disponibilidade para oferecer isso.

Infelizmente. Porque ouvir o relato de quem enfrenta esse demônio interno não significa, necessariamente, ser tragado junto para o abismo. Estar ao lado de quem enfrenta essa batalha pode ser um grande aprendizado e crescimento – ampliando nossa compreensão sobre o que é realmente importante na nossa vida. Nos ajudando a sair do piloto automático no qual somos só mais um parafuso na engrenagem desse mundo – e nos fazendo priorizar o que é essencial para sermos felizes.

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AMOR NÃO É APEGO (NEM SOFRÊNCIA, PFV)

A questão é simples e complexa, segundo os budistas: amor de verdade não dói. Ele inunda o coração e se basta sozinho. Já o apego traz sofrimento, porque guarda dentro de si o medo da perda. Da rejeição. De “ficar sem a pessoa”, de “ficar sozinho”. O amor não pode ter medo de perder porque não perde nunca – ele existe indiferente da reciprocidade. Existe em si mesmo.

Desde pequenos fomos ensinados a pensar em amor e apego como quase sinônimos, e a encarar com alguma benevolência um ciúme “saudável”, ou o medo de perder o amado(a) como prova de que realmente o que se sente é amor. Séculos de literatura, arte e poesia na nossa sociedade ocidental nos moldaram a pensar assim – isso desde as dores do amor romântico do jovem Werther, passando por Lady Gaga,  até os cantores atuais da sofrência. Os budistas lidam melhor com a questão – recomendo palestras do Dalai Lama e da monja Jetsunma Tenzin Palmo sobre o tema. Fácil de achar no youtube.

É claro, eu, como a maior parte dos mortais, compreendo racionalmente a diferença entre os dois sentimentos – mas daí a separar apego e amor dentro do coração, são outros quinhentos. Lembro de ouvir palestras e ler sobre o assunto e literalmente passar por cima dele – afinal, eu entendia a ideia mas não via como colocar em prática. Era abstrato demais. Algo que só pessoas muito evoluídas espiritualmente ou com décadas de análise talvez pudessem sentir. Mas não. Um dia aconteceu. E foi num sonho.

Parênteses: Alguns dos nossos melhores insights vêm nos sonhos – não levante correndo para engolir um café e correr para o escritório. Tire pelo menos uns 5 minutos para ouvir o que o seu mundo interno tem a dizer quando você dorme e a consciência relaxa.

Anos depois de um término, sonho que recebo uma carta. Uma embalagem com carimbo e selo de algum país distante. Abro o pacote e encontro um casaco cinzento e antigo, com bandeirinhas, selos e brasões de vitórias passadas. Dentro, uma foto minha. E um poema, numa letra e língua que não consigo entender.

No sonho, vestida com aquele casaco de tantas guerras, percebia que era eu quem ele buscava. A pérola invisível, escondida no conteúdo translúcido da concha. E que ele, debaixo de tantos brasões e realizações, de tantas máscaras a que a vida nos obriga a usar para vencer no mundo, também era. The real deal. O czar medroso, generoso e puro que se esconde por trás da armadura, para não doer mais. É, mas não sabe. Nem quer saber. Quando irá acordar, meu deus?

Nunca – diz meu coração. E de repente me sinto aliviada, sem aquele peso. Porque não preciso de mais nada. O que sinto é suficiente – e enorme o bastante para me fazer querer viver muito mais. Ainda no sonho, passo por aquela rua, aquela casa. Fecho as janelas do táxi, fecho os olhos. Deixo ir.

Estou na praia, sozinha. Observo as ondas à noite e contenho meu desejo de me fundir ao céu e mar noturno. Entre os dedos seguro uma, duas, três conchas – as mais bonitas depois da ressaca. Com cada uma delas pesando suave na mão, espero pelo dia em que possa entregar a dele – o amuleto que o protegeria do mundo cão em que ele (sobre)vive. Esse dia não vai chegar, olho para o mar e sei. Mas isso não muda nada. Nem me faz querer nada que não seja pura oferta da vida, do mar. Do mundo.

Querer, querer. Só queremos. Queremos ter tudo – e vivemos presos no medo de perder o que “conquistamos”. Escuto as ondas indo e vindo e me sinto livre – ainda estou inteira. Cada vez mais. Nossas memórias passam pelo espelho das águas como flashes, mas não trazem saudade – o tempo-espaço é acessível a qualquer fechar de olhos. A cada onda que se quebra no horizonte.

Os budistas dizem que o todo sofrimento vem do desejo (não sou budista e ainda não atingi o nirvana para interpretar corretamente essa frase), e que o caminho para sair da prisão do apego e da dor é deixar ir. Aprender a se bastar. E ficar genuinamente feliz com o crescimento do outro – mesmo que ele tenha escolhido viver longe de você.

Fácil falar, não é? Mas eu juro que num segundo, dentro de um sonho, foi fácil – e a partir daí foi ficando cada vez mais natural.

Porque amor de verdade não precisa do outro. Afinal, o outro está sempre contido dentro do amor. Não como um fantasma – mas como uma constância que faz nosso coração bater mais rápido em cada respirar de maresia, em cada linha de um poema. E não, não dói. A felicidade do outro passa a ser sua também, porque é impossível sentir algo que te completa e expande tanto e ser mesquinho, querendo aprisionar o que só existe quando há entrega – e para haver entrega é preciso haver liberdade.

Amor de verdade é gratuito e autossuficiente, eterno no tempo como uma onda sonora que se propaga infinita, repercutindo no espaço. No espaço, em algum lugar, nós. Lembra?

Não, você não lembra. Mas não faz mal. Eu lembro por nós dois.

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WANDERLUST – ESSA VONTADE LOUCA DE PARTIR PARA QUALQUER LUGAR

Quem nunca sonhou em pôr a mochila nas costas e deixar para trás as ruas, travessas, casas, mirantes que tanto conhecemos – para se perder (e se reencontrar) em paisagens nunca imaginadas, ouvindo a música de línguas estrangeiras, descobrindo cheiros, sabores, olhares e costumes que nem sabíamos que existia? Quem nunca dormiu numa cama, em outra cidade a horas da própria e, ao acordar, sentiu aqueles segundos mágicos de não reconhecimento, de não ter ideia de onde se está?

Wanderlust é uma palavra em alemão formada pela junção do verbo “wandern”, que significa andar sem rumo específico, perambular, explorar um lugar sem direção específica e “Lust”, que poderia ser traduzido como “drive”ou “craving” em inglês – ou seja, mais que um desejo, uma ânsia profunda.

Não há tradução específica para Wanderlust em português. Não no dicionário. Mas esse sentimento, que invade a gente, cutuca e nos promete maravilhas se ousarmos sairmos da zona de conforto, é tão comum que o termo já faz parte da cultura pop. Afinal, quantas vezes não sentimos esse desejo absurdo de voar sem rumo, largar as raízes e descobrir novos caminhos, descobrindo a nós próprios – na esquina de cada cidade desconhecida?

Abrir a janela e sentir o vento. Abrir o mapa e escolher, de olhos fechados. Ou com um desejo profundo – um desejo noturnamente gerado em sonhos, numa hiperatividade inconsciente de si.

Abrir os olhos e escolher o destino. Escolher partir. Sonhar com encostas, pedras, estrelas, conchas – seres estranhos, estrangeiros. Com cheiros e sabores que só se pressentem, que permanecem à espreita, à espera de existir no real. Sonhar com rostos róseos, em cores que explodem a simples menção de um poema.

Mas não é preciso ir embora. Wanderlust é como uma palavra mágica – ela carrega um sentido e um sentimento que preenche a nossa alma de um desejo, de uma fome, que pode ser satisfeita ou não. Que pode ser abafada/cultivada folheando guias de viagem, livros de fotos de países distantes, vendo filmes, ouvindo poemas em outras línguas que não se entenda. Esbarrando no estranhamento do cotidiano, que só nutre esse desejo de partir para qualquer lugar onde mais do que se sentir estrangeiro na terra natal, sejamos estrangeiros de verdade.

[Palavras são mágicas. Palavras são pedras, estrelas, conchas, mortos-vivos pesados e brilhantes, existindo muito além. Fazendo existir. Palavras são, muito mais do que nós, do que qualquer um de nós.]

Quando escrevo mar, o mar entra todo pela janela, diz Al Berto, o poeta português. Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas, diz Herberto Helder, outro poeta lusitano. Levanto os olhos para o mar, despeço-me. Escrevo Wanderlust no papel e o desejo me transporta para onde eu quiser.

Hoje vou partir para onde o sonho levar. Que seja ele, e só ele, a escolher o destino. Que seja.

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QUANDO O AMOR NÃO É CONVENIENTE

Não sei quando começaram a nos ensinar que caminhar sozinho era sinônimo de ser adulto – e que qualquer coisa diferente disso cheira a codependência ou a naftalina. Não sei quando nos ensinaram que a saída é partir para outra. Mas hoje a cartilha é clara: o amor não é suficiente, não pode vir em primeiro lugar.

É claro que é preciso saber estar sozinho. É essencial se bastar, antes de querer doar alguma coisa de si para o outro. Este texto não é, de maneira nenhuma, contra solteiros convictos ou quem acha que deve ficar um tempo sozinho para crescer em determinado sentido (na carreira, na saúde, para cuidar de um pai ou filho etc). É super saudável ser inteiro, ficar de pé por si só, sem muletas, nem bengalas.

A minha questão é: por que uma relação tem que ser vista como uma bengala? De onde vem tanto medo de criar vínculos? Por que uma relação ganha rótulo de “cilada” se a outra pessoa é alguém que nos questiona, que abre a nossa cabeça, nos motiva a pensar de forma diferente, e, de repente, até cogitar replanejar a vida para criar uma nova a dois? Qual o problema de arriscar – sendo que por mais que um término doa, sempre se ganha alguma coisa ( nem que seja um aprendizado novo) no final? Por que pensamos que antes de qualquer relação devem vir os nossos projetos individuais?

Lendo e vendo fotos em redes sociais, fico sempre com essa sensação de mensagem ambígua: aparentemente, todo mundo almeja ter uma relação bem-sucedida, ser parte de um power-couple, etc. Mas amor não basta: a outra metade da laranja tem que cumprir mil requisitos, se enquadrar no cenário de sonho do nosso porta-retrato – a história tem que seguir um roteiro pré-determinado, que se “encaixe” nos nossos objetivos. Alguns planejados pelos nossos pais, outros desenhados na nossa cabeça quando ainda crianças – e não é estranho que 10, 20, 30 anos depois eles não tenham mudado em nada?

O amor tem que caber direitinho no cronograma. Qualquer coisa que nos desvie da rota há muito traçada, que nos desconstrua, nos faça pensar, mudar, é perigoso – visto como nocivo, um “mau investimento”.

Melhor procurar na outra prateleira do supermercado – afinal, sempre há outras pessoas, com outros planos. Que de repente até combinam com os nossos, e aí nem temos que nos desviar tanto…

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AS MULHERES DE FRANCESCA

Em 1981, com apenas 22 anos, Francesca Woodman suicidou-se – deixando uma obra fotográfica composta maioritariamente por autorretratos femininos, impenetráveis e, ao mesmo tempo,fantasmagoricamente irresistíveis. Como num jogo de sedução, a modelo se esconde e revela pela lente da câmera, capturando uma infinidade de mulheres que nos observam de algum espaço-tempo a que não temos acesso – que nos encaram quase no milésimo de segundo antes de se dissolverem e escaparem à nossa compreensão.

Quase como um statement do feminino. Nos autorretratos de Francesca Woodman, o corpo escorre em traços contínuos, fluidos – ilusórios – camuflando-se no background como um objeto decorativo, imóvel – porém pulsando em movimento. Desnudando-se para a câmera, as mulheres de Francesca transcendem o real e secretam, ante o observador atônito, a seiva de uma vida interior, hipnótica e turva. Os flashes de luz captam relâmpagos da psiche aflorando à superfície da pele. A psiche difusa, silente, fugidia.


A mulher erva daninha, intensa e inteira, sublunar. Quieta e escura como a pérola, que se desenvolve lenta e anônima no interior ósseo das ostras. A mulher sem nome, que empresta seu corpo ao ethos do ambiente, deixado-se invadir pelas rugas da parede, a poeira do chão, a casa em ruínas. Que, como mariposa noturna, se deixa confundir com a textura rugosa dos troncos de árvores – para preservar de olhares, mãos e prisões, o seu viver subterrâneo.


Francesca Woodman imprime, no filme fotográfico, imagens do feminino inconsciente que encanta, envenena, enlouquece o observador e o modelo. Seus retratos caminham da exploração tátil do corpo e do entorno para a gradual fusão entre os dois. Testemunhando, em imagens simbólicas, toda violência desse “encontro”.

Essas femmes nos surpreendem num segundo de deslocamento do vazio à volta, que ocupa, preenche e possui, infalivelmente, todos os sítios da sua alma. Elas nos olham no milésimo de segundo antes da destruição, quando irão cumprir o destino da lenta dissolução e desaparecimento.

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