A arte de salvar um casamento, de Thiago Picchi

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Não se deixe enganar pelo título, leitor incauto: A Arte de salvar um casamento não é um livro de autoajuda, muito menos um manual para relacionamentos em crise. Longe das fórmulas convencionais deste gênero, Thiago Picchi tece narrativas que surpreendem pela ironia sagaz e pela sensibilidade, flutuando, com habilidade de escritor maduro, entre o lírico, o surreal, e o tragicômico.

No conto que dá nome ao livro, um marido assiste à transformação da esposa quarentona, após anos de casamento, em aluna de Belas Artes. Uma viagem à Minas se torna o verdadeiro teste para a relação: ele se fascina com as igrejas de Ouro Preto e ela, impaciente, o arrasta até Inhotim, onde ele é o único “careta” entre rapazes pálidos, barbudos e aparentemente deprimidos, parte do séquito de amantes da arte conceitual.

Na escrita lúdica e pungente de Thiago, as visitas a uma irmã em estado terminal envolvem bombons sonhos de valsa, flertes com enfermeiras, e uma batalha fraternal de tons infantis. Em “Cara a tapa”, um rapaz delicado faz o inventário das bofetadas levadas ao longo da vida, começando com a de Rodson, na escola em Catanduva, até o recente, desferido por uma motoqueira clone do Prince. À beira do Alzheimer, o velhinho Estêvão resolve homenagear os antepassados de uma forma inusitada, sendo adotado pela comunidade alternativa de Copacabana. Ainda há Jonas, o obeso que vive com a mãe gorda e de língua ferina, e para quem o segredoda vida é ter sempre chocolates e bolachas escondidos no bolso.

Aliando, com raro equilíbrio, o humor negro à comédia e ao drama, Thiago Picchi apresenta personagens ao mesmo tempo hilários e comoventes, que tocam o leitor na sua vulnerabilidade, mostrando a beleza do cotidiano mais patético e banal. As histórias de A arte de salvar um casamento fisgam o leitor no seu ritmo ágil e clímax surpreendente, num livro que desde a primeira linha é impossível de se largar – para se ler de uma assentada só.

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