A leitura-jogo e a arte da invenção

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

 

“A invenção do amor”, de Jorge Viveiros de Castro (7Letras, 2013)

Será muito anti-ético escrever sobre livros que ajudamos a editar? Provavelmente. No caso deste livro, escrito por um exímio editor (basta dizer que há mais de 15 anos descobre e publica autores nacionais), minha única contribuição foi a retirada de uma vírgula. Mais nada. O original era perfeito, limpo, claro. O labirinto estava na própria história, nas entrelinhas da (auto)ficção. E quando se trata de um sentimento tão raro como só alguns livros nos despertam, fica difícil se conter e limitar a pérola ao espaço mínimo de uma concha. Ou de uma estante.

Quando a memória para de funcionar, os tempos se conjugam num único e mesmo presente, avisa Jorge, o narrador. É ali, já nos primeiros parágrafos, que o leitor é tragado numa pausa espaço-temporal – o hoje, o ontem e o que vem ou pode vir depois se mistura, simultâneo e aleatório. Nesse caminho sinuoso, de saídas, desvios e intertextualidades múltiplas, somos guiados por um homem na eterna busca pelo rosto de uma mulher que se foi, que se acostuma a outro nome após a morte do pai – falecido e ausente há tempos. Pai e filho se desdobram no mesmo nome, em meio aos primeiros sinais de demência da mãe.

Loura, ruiva, morena, quem é essa mulher que se vai – Laura, Joana? e aquela que levou de vez o pai para fora de casa, qual eram o nome dela, delas? – os olhos senis da mãe ainda indagam, mas é o narrador quem pergunta – entre os diários empoeirados do velho Jorge, em conversas ambíguas com o tio, em diálogos confusos com um antigo detetive. Afinal, só um dos Jorges procura, em cada perfil de mulher que avista de longe e que confirma, com alívio, ao chegar perto, não ser o dela.

Mas enquanto busca aquilo para o qual não há respostas fáceis, ele se depara com a invenção. Algo tão raro e óbvio e misterioso que não consegue ser descrito, que requer muitas palavras para o definir – intraduzível, estranho. Tudo o que existe precisa de um nome e uma patente, mas essa invenção pede um nome simples, que não se esgote. Afinal, este é um artefato pronto para ser usado e abusado de infinitas maneiras, sem nunca perder seu valor de raridade, preciosidade. Que se molda a rostos, paisagens, épocas, guardando em sua essência a imortalidade – sobrevivendo a todos nós, perplexos e falíveis mortais.

Em A invenção do amor, de Jorge Viveiros de Castro, cada linha é como um portal, como um chão falso deslizando o leitor para o fundo de novos sentidos. Como uma leitura-jogo, as páginas pedem para serem arrancadas, embaralhadas e lidas em ordem aleatória – como a própria invenção, singular, infinita e única para cada um que a vive. Nessa escrita de caminhos proustianos e eternos retornos, a única regra clara é a de que “tudo é o mesmo e simultâneo”: leitor narrador e autor partem do mesmo ponto zero, se arriscam, se deixam ganhar ou perder – só para se encontrar mais adiante, num movimento que reflete a própria correnteza fluida, forte, fugaz e imortal do amor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *