Estante

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Entre os habituais livros de poetas mortos (ou não) e os romances incontornáveis que  me esperam nas estantes estrangeiras até que eu viaje e os traga para casa, naquela viagem minha mala revelou um padrão curioso: pelo menos 4 volumes com troca de correspondência entre autores. Todos eles fascinantes – mas confesso que em alguns casos há um pudor que, se não me impediu de levá-los para casa, muitas vezes me faz parar em algumas páginas, voltar – quase me certificar de que ninguém está vendo para só então engolir mais uma carta. Furtivamente. É uma delícia poder ler e reler e devorar secretamente o texto, o tom, a forma desses diálogos tão íntimos e tão performáticos dessas cartas e diários.

The Letters of Vita Sackville-West to Virginia Woolf – Fora toda a tensão em que a relação destas duas se inscreve desde o início (que não interessa só a biógrafos) é maravilhoso acompanhar o processo de composição e criação de Orlando, personagem assumidamente inspirada na própria Vita. E conhecer mais das dúvidas e inseguranças com que cada uma das autoras se deparava ao longo da escrita de cada obra.

Herzzeit – Ingeborg Bachmann, Paul Celan

Essas cartas só deveriam vir a público em 2023, mas os herdeiros entenderam a angústia dos leitores germanófilos e adiantaram o material para publicação em 2008. Aqui aparece toda a (intensa)  correspondência trocada entre Celan e Ingeborg (que, por diversos revezes e impasses, tiveram uma relação quase por cartas, telefones e telegramas), além das missivas trocadas entre Celan e Max Frisch (amante de Ingeborg) e Ingeborg e Giséle Celan-Estrange (esposa de Celan). Mais do que desvendar detalhes sobre qualquer dessas relações, a sequência de cartas traça uma trajetória da devastação que avança sobre os  autores, jogando luz sobre vários aspectos da escrita poética dos dois (sempre acusados de serem tão herméticos…).

Mário de Sá-Carneiro-Correspondência com Fernando Pessoa – Como a Clarice, Fernando Pessoa é quase um oráculo –  nos seus livros tem resposta para tudo. E o Mário de Sá Carneiro parece bem Florbela Espanca no quesito histeria (com todo respeito pelos dois), mas é tão genuinamente atormentado que não dá para não sentir carinho por ele. É muit engraçado ver o Sá Carneiro tentando levantar a autoestima do amigo, que aparentemente não acreditava muito no próprio talento (aparentemente – quando se fala em Pessoa, nunca se sabe que identidade ele está vestindo). A amizade (e a parceria literária) entre os dois sempre me intrigou, no bom sentido.

Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva («Correspondência a Três») Esse livro tinha tudo para ser um dos preferidos na estante.. só que a edição está toda cheia de notas, explicações e desvios, pedagógica demais a ponto de me atrapalhar a leitura. E olha que não conheço como deveria a obra de nenhum dos 3…

Novas Cartas Portuguesas – ou o emblemático livro das três marias, escrito na época em que pouco se podia escrever/dizer.

Enfim, mais do que sentir uma proximidade falsa com cada um destes autores, o que sinto quando leio essas correspondências é uma nostalgia (boba, como todas, eu sei) de um tempo… em que havia tempo para isso. Em que romances duravam décadas e ninguém achava bizarro. Em que relações verdadeiras se sustentavam com palavras, ideias, emoções. Em que as palavras tinham algum peso, eram coisas reais que brilhavam, gritavam, afagavam, feriam. Em que havia tempo e espaço para uma construção diferente, que, sim, até podia ser tão intensa e vertiginosa como as relações ditas líquidas de hoje. Mas que poderia envolver uma doação mais generosa, quando se oferece aquilo que se descobre com esforço no mergulho no íntimo de cada um. O que para mim vale mais do que quando se doa o que há de abundante, o que não se precisa.

Mas eu sou pouco moderna, sempre disseram.