leonilson – bordando afetos

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Nascido no Ceará e criado em São Paulo, viajante, nômade e cigano – como sua mitologia poética define, Leonilson surpreende pela delicadeza de suas obras, que mesclam bordados, gravuras, poemas e tecidos. Costurando memórias, afetos, imagens e anotações de viagem, Leonilson borda linhas e elementos para dar corpo aos seus afetos no tecido, numa arte tão autobiográfica que ao comover o espectador se torna universal.

Bordar é inscrever com linha palavras, imagens, conceitos. O convívio com panos, linhas e agulhas na casa materna, a herança cultural nordestina e a admiração pelo trabalho de Bispo do Rosário podem explicar o que levou Leonilson (1957-1993) a introduzir o bordado em seu percurso artístico. A palavra feita de linha ganha intensidade e força no silêncio dos grandes espaços vazios que surgem nas obras do artista. A palavra bordada ganha significados, sentidos e dimensão plástica.

empty man 1991.jpg

Numa aparente despreocupação com a forma, o bordado deixa de ser ornamento para virar personagem, elemento que chama atenção para as margens dos tecidos com mensagens plenas de sentido e de enigmas. Nessas obras, o suporte tem uma participação importante – a leveza, textura, caimento, transparência dos tecidos dialogam com as palavras costuradas nas extremidades – como se demarcassem territórios afetivos, inscrevendo um “eu” à margem.

À margem.

Um lugar – e conceito – que poderia definir a obra de Leonilson, pelo menos nos seus últimos anos, já afetado pela fragilidade física, já experimentando o exílio do próprio corpo em tecidos enormes, com pequenas inscrições pulsantes, intensas, vívidas. Se nos anos 80, as cores e combinações inusitadas que caracterizavam o trabalho do artista começaram a ganhar corpo, chamando a atenção pelo figurativismo pop no início, pelo humor e juventude que exalavam – nos anos 90, ao se descobrir portador do vírus da Aids, sua produção foi se fechando sobre si mesma, ganhando uma nova estética, onde o vazio e a ambiguidade ocupam presença importante na tela – ou tecido. O bordado vira poesia, e os temas, antes voltados para o mundo e suas descobertas, tornavam-se cada vez mais íntimos, pessoais e ao mesmo tempo afirmativos, com uma inesperada – e desarmante – vulnerabilidade e beleza.

ninguem.jpeg

o deslocado.jpg

Mais do que resgatar uma tradição familiar feminina da sua terra de origem (o Ceará), os bordados de Leonilson vão além: transgridem normas da representação, desafiam a delicadeza associada à técnica com palavras desiludidas “Ninguém” (1992), apaixonadas “Voilà mon coeur”, (1989,), questionadoras “El desierto” (1991) ou viscerais “You brought the shark to my heart” (1991). Entrelaçando afetos, trazem imensos espaços vazios que contemplam – ou co-movem o espectador/receptor, estimulando a sua participação no jogo de significações.

voilamoncoeur.jpg

E é servindo-se de linhas e agulhas para bordar que o artista costura sua autobiografia, agora atingida pela doença, criando uma estética e poéticas novas. A Aids surge nas obras do artista de uma forma delicada, nada ativista; difusa, com uma aura de melancolia que já existia em obras anteriores. Em nenhum momento o nome da doença é mencionada num título ou nas palavras bordadas pelas suas mãos.

Utilizando múltiplos suportes – bordado, pintura, assemblage, ilustração, escrita em diários e cadernos e a costura de linhas e elementos (como botões ou pedras semipreciosas), Leonilson criou uma linguagem artística própria. Sua abordagem e autoria é tão marcante que pode ser identificada imediatamente independente do suporte – e que pode ser lida e relida de diferentes formas e com uma amplitude de significados, enunciados entre tecidos, palavras, imagens.

inflamavel.jpg

Tecendo a resistência

Aparentemente um ofício delicado, a costura e a inscrição no tecido se tornam uma forma de resistência, tanto no viver como no fazer da arte (que, no caso da sua estética autobiográfica, sempre se misturaram). Suas obras dos fins dos anos 80 ao início dos 90 escancaram o salto no vazio, na dúvida, no medo, no não saber do futuro.

cheio_vazio.jpg

A forma como sua arte refletiu o medo e as angústias de uma geração assombrada pelo fantasma da aids pode ser considerada singular no panorama da arte da época. Ao mesmo tempo que sua obra esvazia o foco excessivo na epidemia (que dominou o final do século 20), mergulha no exercício de uma poética ainda mais autobiográfica – e por isso mesmo, universal.

34comscars.jpg

Criando uma poética própria, incorporando as dores, os prazeres, as agruras e angústias da vida em sua produção, Leonilson deixou em seus últimos bordados uma obra rica em significados e subjetividade, aberta para novos estudos e principalmente, para novos espectadores – livres para recriarem e redescobrirem novos afetos e sentidos a cada linha.

montanha.jpg

© obvious: http://obviousmag.org/um_pais_possivel/2015/03/leonilson-bordando-afetos.html#ixzz3gZfPjfR1
Follow us: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook

Fonte: leonilson – bordando afetos