A cor e a eloquência em “Furta-cores”, de Cristina Parga  

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Por Pedro Demenech

São raras as palavras para definir e apresentar um livro como o que ando lendo, por esses dias.

Capa do livro “Furta-cores” de Cristina Parga

O livro Furta-cores de Cristina Parga é uma peça rara no hall da novíssima literatura brasileira. Nem cânon nem marginal. Por que? De modo simples e doce, a autora traz para sua escrita cor e eloquência em seu primeiro livro, publicado em 2012. Esmiucemos melhor do que se trata.

Poderíamos inserir a precisão artística de Furta-cores numa tradição que começa, por exemplo, com A. P. Tchekhov e se estende, por exemplo, até a narrativa de Honorio Bustos Domec e Benito Suárez Lynch por se tratar autores que flertaram com o gênero literário do conto. De fato, a relação entre Cristina e essa tradição só nos traria benefícios, uma vez que, ao olhar deste escritor, a qualidade maior dessa autora é a inventividade.

Contos como “Adágio” e “Playground Europa” flertam com o espaço da cidade como o lugar em que o narrador se coloca para nos contar sua história. Porém, não se trata da cidade-unidade mas daquela cidade-fragmento, vívida somente no íntimo de nossas experiências. Ainda que tentando ser escrito como peça musical, “Adágio” não é nem um pouco lento.

A escritora habilidosamente ao fazer uma descrição “sereníssima” de Lisboa e transformando-a numa espécie de Veneza, nos faz claudicar por cantos da cidade, que mesmo serena por dentro acaba pesando e agitando a vida interior daqueles que habitam-na. Seria como se a autora nos fizesse ver por, no mínimo três olhares diferentes, o entrecruzamento de diversos flâneurs que experimentam a cidade singularmente em que cada um “[d]Os mapas são acessados com a ativação dos circuitos neuronais,algo independente da memória”. Pessoas habituadas à cidade mas que se perdem interiormente.

“Playground Europa” também faz o leitor se diluir, ainda mais. Cada frase, curta e cintilante leva o leitor, dessa vez, a ser nômade e se perder “[n]a paisagem de planície, [n]os campos desertos e secos, sem fim”. Linha por linha, Cristina vai urdindo uma espécie de platô em que liso e poroso convivem mutuamente, ainda que em constantes conflitos.

Eis, então, duas questões que chamam a atenção nessa leitura: a eloquência com que Cristina pinta seu texto e a cor que vai preenchendo-o.

A autora, longe de ser metafísica, é tão eloquente que pode irromper com simplicidade e candura toda e qualquer forma de falsa sobriedade. Há na autora uma mescla, ainda que sútil, de erudição e contenção. O diálogo com a Bíblia, o flerte com Walter Benjamin acabam sendo escamoteados pelas cores que vão pulando das páginas, através de nosso olhar.

Nesse sentido, o Furta-cores não rouba a atenção por neutralizar cores. Ao contrário, a autora vai produzindo um prisma sobre a literatura e dissecando, conto a conto, cada elemento da vida. E, ainda que pareça simples, no primeiro olhar; ainda que pareça de fato não haver cor alguma no livro; ainda que seja difícil chegar às questões da autora, é perfeitamente possível notar que após a experiência de leitura a gente mire o mundo de modo mais intenso e menos duro. Porém, engana-se aquele que diz não haver razão na escrita da autora.

Poucos são aqueles que em seu primeiro livro, e logo no primeiro conto do livro, abrem margem para uma reflexão sobre qualquer tipo de tradição. E por que com Cristina seria diferente? Ora pela sinestesia, ora pelo prazer que causa a leitura. De fato, a cada cor Furta-cores só nos mostra a que veio: mostrar que a ficção, ainda que rápida, é capaz de mudar radicalmente a realidade.

Fonte: A cor e a eloquência em “Furta-cores”, de Cristina Parga |