Autorretrato, de Raïssa de Góes

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O que constitui um autorretrato?– pergunta Raïssa. Como chamar de “eu mesmo” um objeto destacado de si próprio? Para pensar e escrever sobre esta categoria deretrato, a autora tira uma foto do próprio rosto, observa a imagem por segundos – dessa sequência de gestos surgem vozes, riscos e traços que, se parecem vir de um tempo ambíguo entre o futuro e o passado, ganham corpo no momento presente da escrita – e da leitura.

Deste mergulho no tema vêm à tona imagens, conceitos e textos que se misturam ao mesmo tempo em que a figura no autorretrato toma forma. O olhar, que sustenta a relação do retrato com seu espectador, o retrato e sua relação com a morte; o estranhamento frente ao deslocamento do rosto em relação à sua representação, a inscrição na superfície – as questões se desdobram em capítulos, imagens e pequenas narrativas ao longo da obra.

É no tempo do traçado dessa imagem, no percurso incerto dessas linhas que se inscreve a escrita de Raïssa de Góes, onde ecoam Artaud, Nancy, Derrida, Deleuze, Freud. Diferentes linguagens, gêneros e discursos se fundem nesta narrativa que é ao mesmo tempo objeto de arte e ensaio – que costura imagem, crítica e ficção – desafiando, questionando e fascinando o leitor.
Traço a traço, palavra a palavra, seu texto faz surgir uma face que se desvenda no próprio ato de desenhar, e renasce a cada olhar..