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Angélica

Desligo o telefone e tento processar sonho, notícia, mas não consigo. Sentir nada. Fico estática. Olho para a jarra e vejo os botões murchando, flores que nunca se abrirão, nunca mais. Daquelas já abertas despencam pétalas, uma, duas, oito, conto – analisando perdas e danos. As que resistem me olham em desafio, exalando esse perfume que não distingo mais do meu. Corro para o espelho –meus olhos também estão pequenos, ferinos, como essas pequenas estrelas que guardam um mistério podre em seu núcleo. Intuitivamente tiro toda a roupa e me enfio num banho, esfrego a pele até arranhá-la mas não consigo me ver livre desse odor, dessas pétalas, das promessas desses botões que murcham. Não consigo me livrar porque a seiva já corre aqui dentro como sangue, nutrindo órgãos e cabelos que caem pelo azulejo azul do box em teias labirínticas de aranha.

Acontece às vezes

Sabia que a culpa era sua, sempre foi. Ela que não quis enfrentar fatos, que compreendeu além do compreensível. Ela que acreditou em cabeleireiros, em vestidos. Que acreditou em algum controle. Fecha o armário – de que vale tantas roupas – mas não consegue chorar, o choro também não tem porquê. A ferida não sangra, mas reabre a cada movimento mínimo lembrando que o melhor é ficar parada – como se, imóvel, o mundo não girasse, não se movesse sob os seus pés.

   Os afogadosum passatempo

No sonho vivíamos perto da praia. Perto de uma falésia de onde as pessoas se atiravam. Toda a semana. Pelo menos um ou dois por mês. Aquilo se tornou um passatempo: passeávamos na beira d’àgua à procura dos corpos que davam à costa – tocávamos fascinados a pele fria azulada e examinávamos os olhos baços, revirados.