#primeiroassedio – quem se lembra?

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Semana passada, sob a hashtag #meuprimeiroassedio, fomos confrontados com histórias de vergonha, sofrimento, raiva e impotência que a naturalização do machismo e da opressão das mulheres obriga as nossas meninas a passarem. Alguns relatos foram muito dolorosos de ler; muitos homens ficaram surpresos/chocados que, em pleno 2015, esse tipo de agressão ainda seja vivida diariamente por meninas de todas as faixas etárias, bairros e estratos sociais. Claro, para nós mulheres, não foi surpresa nenhuma. Supreendente mesmo foi perceber que é possível fazer barulho, que temos o direito e o dever de sim, fazer um escândalo, e que juntas, nossas vozes têm muito mais força.

Bom, a semana passou e não escrevi nada sobre o meu #primeiroassedio. Não por puder, medo, vergonha, mas por uma razão simples: eu não me lembro. Não tenho a menor ideia de quando aconteceu o primeiro. Três, cinco. sete? Nem faço ideia de quantos anos tinha. Tenho certeza de que muitas mulheres tiveram que arrancar lá do fundo do baú a história mais antiga de que conseguiam se lembrar. Eu não consegui.

Posso não me lembrar do primeiro, mas…me lembro do mais traumático. Como tenho MUITA sorte, o assédio mais violento que sofri não envolveu nenhuma agressão física, nem coação, nem pressão para fazer nada; não foi exercido nem por familiares nem conhecidos. SORTE, até hoje penso. Só que, mesmo com toda a sorte do mundo (para o que contribui o fato de ter nascido branca, de classe média, viver num bairro bom e seguro, estudando numa escola caríssima, ótima e portanto “bem frequentada”(palavra horrível, eu sei) – ou seja, mesmo contando com todo privilégio de classe, e mesmo não tendo sofrido nenhuma agressão direta, ele foi de uma violência simbólica tão forte e gratuita que seus efeitos se arrastam…até hoje.

Tinha doze anos. Era adolescente, no corpo nasciam as primeiras curvas. Fui no shopping com a minha mãe e resolvi, meio reticente, estreiar uma saia jeans vermelha. Estava insegura de que pensassem que eu queria parecer “sexy demais”, mas minha mãe me assegurou que não tinha nada de errado, era só uma saia vermelha numa pré-adolescente, e não estava nem indecente nem curta. Então fui. Mas foi só sair do carro e entrar no shopping para perceber o meu erro.

Fui comida com os olhos por praticamente todos os seres do sexo masculino que passavam por ali.

Veja bem. Tenho perfeita consciência de que nunca fui uma beleza estonteante do gênero de “virar cabeças”; sempre fui mignon, cabelo liso normal, olho e cabelo castanho na pele pálida de falta de sol – nada demais. Chamo atenção por outras qualidades (o que, aliás, sempre me agradou).

Então, quando isso aconteceu, não me senti lisonjeada (como alguns meninos argumentam), nem cogitei a hipótese de que os caras estivessem encantados com a minha aparência. Nada disso. Me senti profundamente invadida. Me senti um alvo ambulante, um pedaço de carne na vitrine, que todo mundo tem direito de olhar, falar sobre, pensar coisas nojentas e verbalizá-las em alto e bom som.

E não havia o que fazer. Com doze anos eu já era madura o suficiente para perceber que os homens não iam mudar – se eu não quisesse mais passar por isso, quem tinha que mudar era eu. Tinha que descobrir alguma forma de fazer com que não me olhassem daquele jeito, não observassem tanto, não encarassem mais.

Como muitas meninas, descobri. Aprendi, ao longo dos anos, a ficar invisível. Fui me aperfeiçoando na técnica com a idade. Dez ou 15 anos depois, já era expert.

A verdade? A verdade é que funciona sim. Enxugando as próprias curvas, você não desperta mais o olhar de desejo e pode andar em paz e liberdade pelas ruas. Ninguém mexe contigo. No máximo para te zoar perguntando qual o caminho pra Auschwitz (aconteceu com uma amiga). Mas é melhor ser considerado alguém esquisito do que uma iguaria ambulante. Era o que eu achava na época.

O problema é que, ao enxugar o próprio corpo, você perde forças e passa a nem ter energia para andar em paz pela casa, que dirá na rua. Mas isso é detalhe. Detalhe mínimo para quem só quer ficar invisível e evitar esse tipo de olhar/invasão. Digamos que, para quem precisa se proteger desse mundo, a falta de energia seja encarada como um dano colateral.

Depois de, sei lá, vinte anos de terapia, aprendi um monte de coisa. A primeira e, talvez, mais importante, é que o jeito com que reagi é estupidamente NORMAL. Frequente. Na terapia de grupo, descobri que a maior parte das meninas que passavam pelo mesmo problema de saúde tinham, lá atrás, quando novas, uma experiência forte de abuso/assédio ou mesmo agressão. Praticamente todas usaram o mesmo mecanismo de defesa – desaparecer – para tentar escapar a esse olhar invasivo. Praticamente todas eram inteligentes e sabiam bem que estavam “overreacting”, como diziam alguns médicos, mas era mais forte do que elas. Controlando a alimentação, controlavam as próprias formas e, por consequência, o olhar dos outros. Com 300 calorias em frutas e vegetais por dia, não demora muito tempo pro corpo ficar numa confortável forma andrógina que não atrai os olhares gulosos masculinos.

Depois que se aprende esse truque, é muito difícil querer voltar atrás – e lidar com os olhares, com os julgamentos, com as gracinhas, como o mundo adulto, com o mundo real. E quando se vê, já se passaram cinco, dez, quinze anos – fica cada vez mais difícil mudar de perspectiva e, portanto, de comportamento.

Agora, adulta, consigo relativizar. Ok, nunca vou ser capaz de andar com uma saia vermelha curta, mas ao menos não me sinto uma sem vergonha que merece ser tratada como iguaria só porque nasceu mulher e tem curvas. Continuo sem orgulho nenhum das formas do meu corpo, rezando para que ele apareça cada vez menos, para que me vejam apenas pela minha mente, alma, ações. Continuo apostando em vestidos fofos e roupas largas. Mas já não me martirizo para desviar a atenção – como todas nós fazíamos (e tantas ainda fazem).

Agora, adulta, penso na minha sobrinha e nos bebês de alguns amigos e meu coração fica logo apertado. Nenhuma menina deveria passar por isso. Nenhuma criança. Nenhuma mulher. Ninguém deveria ter que deixar de viver normalmente para tentar evitar essas agressões e invasões diárias.

Será que alguém dia seremos respeitados por sermos seres vivos, e não por sermos do sexo X ou Y? Porque esse machismo também oprime os homens. E eu não quero criar meu filho respeitando as mulheres e vê-lo sofrer bullying na escola por não ser o “pegador”.

Por isso, quem tiver força para lutar, para tentar mudar consciências, leis e decretos, LUTE. Lute por todas as crianças que sofrem em silêncio, lute por todos os adultos que sofreram tanto em silêncio quando crianças que, agora, já perderam a capacidade de falar sobre o que dói. Só com nossas vozes unidas conseguiremos mudar esse contexto – opressor não só para mulheres, meninas, mas para todos os seres humanos.

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