cronologia dos amigos secretos

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Meu primeiro amigo secreto reescrevia e reilustrava os livrinhos que eu aos 6 anos,escrevia, com seu traço seguro de mais velho. Recebia sempre muitos aplausos; era uma criança e não fazia por mal, mas a mensagem era clara:  tudo que eu quisesse fazer, ele faria melhor.

Meu 2. amigo secreto riu na primeira vez em que mostrei um poema; me fez jurar que não concorreria àquele prêmio para novos talentos – ele e os amigos estavam inscritos, e eu ia sofrer à toa com o resultado. Além do que, eu era brasileira, não tinha chance. [Não, nenhum deles ganhou].
Meu 3. amigo secreto era um “fofo” que me estimulava a continuar como revisora porque eu tinha o olhar supertreinado. Mas era estranho;  quando eu dizia que escrevia, desviava os olhos, mudava de assunto. Reação essa quase unânime  em todos os amigos secretos com que fui esbarrando.

Um amigo secreto me indicava autores tipo Fante, Bukowski ou Caio F. porque eu precisava ter bagagem literária, embora eu já tivesse dito mil vezes que estava numa de  poesia portuguesa e alemã. Meu 4. ou 5. amigo secreto saiu comigo uns dois meses, período no qual fiz questão de não mencionar que escrevia, muito menos que já tinha publicado – para que, né?

Meu 5. ou 6 amigo secreto me conheceu quando eu finalizava o segundo livro. Uma vez pedi sua opinião para cores de capa de um outro livro (que ainda não publiquei), e ele, desconcertado, perguntou se eu ia lançar uma obra “de minha autoria”. Comentei que já tinha um livro de contos – ele não sabia? Mas se ele tinha uma pasta no desktop com fotos garimpadas na minha timeline, como não sabia? Será que tinha pulado as fotos do lançamento do livro, os comentários de parabéns, as resenhas…? Esse amigo, um professor universitário que batia ponto em todas as rodas boêmias da cidade, relaxou quando comentei que o livro era um romance; disse, rindo, que só lia teoria, que para quem pesquisava, ficção era “perda de tempo”. Na época eu não só escrevia como trabalhava em editora, basicamente ajudando outros autores a produzir seus livros – de ficção.

Convivi com esse amigo secreto menos de um mês, o suficiente para ver piscar todos sinais de alerta de gaslighting e  violência psicológica. Apesar de ter desabafado com alguns amigos, ele continua sendo bem recebido em todos os meios, afinal não se deve “meter a colher” e  ele é “um ótimo amigo”; em outras palavras,  sou eu que tenho que evitar festas e bares porque “nada aconteceu”. Como disse uma vez uma amiga advogada; até o cara te bater “nada nunca aconteceu”;  não há muito o que provar, não há nada a fazer além de evitar, além de se esconder.

Hoje não tenho mais amigos secretos.  Mas por que lembrei disso, agora que a hashtag caiu no esquecimento? Porque é final de semestre, escrevo (graças a deus); a cada linha que venço é a voz deles que ouço repetindo que não vou conseguir, é a voz deles que insiste que não sou capaz. Porque é contra a voz deles que eu luto, papel e caneta. Porque cada texto que fecho com orgulho, prazer (ou ao menos alívio) reduz em um decibel o volume dessas vozes – e me mostra que é possível sim calá-los, que é possível sim. Escrever. Ao lado de outras vozes, de outras músicas, outros sons. Ou no silêncio mesmo. É possível e vai sempre ser porque é preciso; porque que quanto mais escrevo, menos força as vozes deles têm.
E no futuro, se minha sobrinha, filha ou qualquer menina quiser ser boa em algo que não seja dança, piano ou canto, não quero que ela esbarre com amigos secretos  – como todas nós.

PS: essas vozes nunca foram mais fortes do que a de todos os homens que sempre me estimularam, começando pelo meu pai – que me deixava ler o que quisesse desde criança, desde Ulysses a Agatha Christie às Flores do mal, passando pelo meu editor e ex-chefe, por vários colegas de turma e amigos queridos, leitores e é claro, aquele que escolhi para estar ao meu lado. ;)

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