Arquivos da categoria: BLOG

Furta-cores em Portugal

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Descobri por acaso que a Ana Lopes, autora do blogue literário O sabor dos meus livros escreveu essa resenha no link sobre o Furta-cores, meu primeiro livro de contos.
Feliz por ver o caminho de volta desse livro a Portugal, meu canto, e onde vários contos foram rascunhados; ver esse livro-barquinho remando e encontrando seus leitores ainda que sozinho, sem agente, nem gente, nem grande máquina editorial para dar aquela ajudinha

um pouquinho do texto da Ana:
“Desde as primeiras palavras do primeiro conto somos atingidos pelo poder, poesia e magia da escrita desta autora brasileira. A doçura, a sonoridade, os cheiros e a ternura que transportam as palavras que escreve e combina são memoráveis e fizeram com que fosse sublinhando e anotando trechos de uma beleza e sensibilidade que eu considero perfeitas, porque nos entram na alma e tocam no nosso lado mais íntimo e emotivo.”

+ aqui 

(atenção: deem uma olhada pelo blogue, a Ana dá dicas preciosas de leitura, e as resenhas são sensíveis, sinceras e críticas, com um olhar agudo e generoso, sem crueldade gratuita. Os leitores e autores agradecem: )

Cidadão carioca (Arte Ensaio, 2015)

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail
(Arte Ensaio, 2015) Textos: Cristina Parga Fotos: Luiz C. Ribeiro
(Arte Ensaio, 2015)
Cristina Parga
Fotos: Luiz C. Ribeiro

Em Cidadão Carioca, os leitores (brasileiros e estrangeiros, porque o livro é bilíngue) poderão conhecer um grupo de cariocas muito especial: cidadãos comuns, que investem no amor à própria arte e resistem em ofícios quase obsoletos numa metrópole cosmopolita como o Rio de Janeiro. Sem medo da concorrência de produtos baratos vindos de fora, esses cariocas nunca desistiram de suas atividades artesanais, e são sinônimo da capacidade de se reinventar e adaptar um ofício exercido há décadas aos tempos modernos.

Mais do que um exemplo de que a insistência , talento e vontade de batalhar levam ao sucesso, esses anônimos famosos na cidade mostram que é possível não apenas sobreviver – mas ser bem-sucedido – apostando na verdadeira paixão, mesmo que esta seja um ofício praticamente extinto nos dias atuais. E que é possível sim, vencer – e ser valorizado – em atividades delicadas, minuciosas e muitas vezes invisíveis, que demandam tempo, habilidade e persistência – neste mundo contemporâneo, fugaz e veloz.

Bem diferente de um livro de ficção, um livro feito a partir de entrevistas demanda uma atenção, sensibilidade e respeito ao entrevistado – e responsabilidade na hora de montar um texto com declarações do outro. Mas foi uma delícia fazê-lo, desde o início: a pesquisa de cada “personagem”, o contato inicial, a surpresa com  a paixão com que cada entrevistada falava de seu trabalho, a descoberta de tantas filigranas e minúcias em ofícios para nós quase invisíveis hoje em dia.

Algumas das entrevistas mais especiais foram com Dona Anália, cerzideira, e o Dr. Toys, “médico” de bonecas e brinquedos.

analia_cerzideiraAos 74 anos,  Dona Anália dirige a loja “Alfaiate mágico” – a mais tradicional de Copacabana. O ofício, que aprendeu aos 17 sob os olhos atentos da mãe, está no seu sangue, ela diz. Nunca teve dúvidas de sua vocação: recuperar roupas e tecidos, devolvendo vida a uma peça que muitas vezes tem todo um significado emocional para o cliente.

Leia mais Continue lendo Cidadão carioca (Arte Ensaio, 2015)

2016: Come as you are – but please, mind the flowers

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail


comeasyouare

Quando penso em 2015, o que primeiro me vem à cabeça são os enormes desafios e baldes de água fria que levei esse ano. 365 dias lutando contra a minha própria insegurança; 365 dias batendo a cabeça na parede para entender o mundo à minha volta; 12 meses de trabalho duro, de investimento cego no caminho que o coração apontava; de fé em alguma coisa que nem eu sabia muito bem o que era.

E, por incrível que pareça, estamos aqui, sobrevivemos. E estamos mais fortes. E estamos mais felizes.

Quando olho ao meu redor e vejo o quanto esse ano foi duro para todo mundo, só tenho a agradecer. E pedir pelos outros. Porque, se esse ano foi uma grande ladeira acima, também foi aquele em que as benções mais maravilhosas e inesperadas simplesmente caíram no meu colo. Em que eu finalmente compreendi que poderia andar sozinha. Que é melhor andar sozinha do que com pessoas que não querem caminhar pra frente com  a gente. E que elas têm o direito de virar a página – e nós também.

Em 2015 joguei fora quase todo o conteúdo da minha gaveta de remédios. Decidi andar com as minhas próprias pernas – sem muletas, sem fugas. Não foi fácil, mas valeu a pena; descobri que a sobriedade é possível, mesmo num mundo que nos assusta a cada buzinada, a cada olhar desolado das pessoas perdidas nas ruas , mesmo tendo que conviver com a pobreza, a crueldade, a miséria que nos rodeia. Descobri que a sobriedade não só é possível como necessária para tentar se não curar (não somos deuses, né?) mas  amenizar tanta dor nesse mundo.

Em 2015 meu pai ficou bom – e eu não tenho palavras para descrever o quão grata sou a todos os anjos, santos, mestres, guias e amigos que enviaram luz. Em 2015 nasceu a Talita, minha sobrinha – portuguesa, exatamente como eu sonhei. Em 2015 tive notas incríveis no mestrado, sobrevivi a um seminário apesar da fobia social (que vai melhorando cada dia mais, eu sei). Fui chamada de apática e sorri por dentro; socialmente sou apática mesmo – e tudo bem, nunca quis ser outra coisa.

Em 2015 descobri, com ele, que amar pode ser fácil, gostoso, leve e divertido – que não preciso me superar nem atingir expectativas alheias para ser amada. Que é possível crescer e construir uma vida junto, numa parceria feita de amor e lealdade. E que, quando se encontra uma joia rara, não basta admirar – é preciso cuidar e alimentar o amor, guardar sempre no peito como pérola na concha.

Em 2015 tive certeza do que o meu coração já dizia há tempos: posso ter vários amigos, uma família incrível, um amor tesouro – mas meu único porto seguro é a escrita. Minha única âncora é a caneta. E o papel meu lar. E não há nada de errado nisso. Na verdade,  isso é mais do que algum dia eu poderia sonhar ter.

Em 2015, sozinha – e inteira – consegui entrar no mestrado. Publicar um romance, que pode não ter bombado na mídia – mas que me deixou satisfeita, feliz com o resultado. Aquelas páginas, em que joguei tanto de mim mesma, tocaram tanta gente desconhecida, pessoas que me escreveram agradecendo, que sentiram que o texto as tocou de alguma forma única. E não há dinheiro nem página no Prosa e Verso que me inundam com tanto amor.

Esse ano quebrei a cabeça de tanto estudar. Também quebrei a cabeça no buffet chinês que a minha cunhada deixou lá em casa – 6 pontos no couro cabeludo, dois meses em pânico de sair de casa e desmaiar novamente, um susto enorme para o meu namorado e minha BFF, que cuidaram de mim como só quem é família cuida.  Mas estamos aí – mais fortes, mais atentos, exigindo menos dos outros, exigindo menos de nós. Perdoando quem não consegue pedir desculpas. Aceitando a ausência de quem não quer mais participar do sitcom das nossas vidas. Abrindo o peito para quem tiver boa intenção e quiser entrar.

2016, seja bem-vindo. Come as you are – but please, mind the flowers

 

 

Menção honrosa no VII Prêmio Paulo Britto

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Os textos vencedores do VII Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia, já estão lá no blog do Plástico Bolha. Tem o “Tireoide”, vencedor de poesia, da Maíra Fernandes de Melo e o
“A casa Queima”, (prosa), da Clarisse Zarvos – ambos mais que merecidos!

E tem também “Extração de minérios” um poema meu que ganhou menção honrosa.
É, um poema – também ainda não me recuperei do choque.

Segue abaixo para quem tem preguiça de abrir link:

Extração de Minérios

Toda palavra
pedra bruta

Toda palavra
minério explode

jazidas

lavra
até o fino brilho do metal
precioso da terra

[e permanece selada
sem poros – rocha]

Leia todos os textos vencedores aqui 

cronologia dos amigos secretos

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Meu primeiro amigo secreto reescrevia e reilustrava os livrinhos que eu aos 6 anos,escrevia, com seu traço seguro de mais velho. Recebia sempre muitos aplausos; era uma criança e não fazia por mal, mas a mensagem era clara:  tudo que eu quisesse fazer, ele faria melhor.

Meu 2. amigo secreto riu na primeira vez em que mostrei um poema; me fez jurar que não concorreria àquele prêmio para novos talentos – ele e os amigos estavam inscritos, e eu ia sofrer à toa com o resultado. Além do que, eu era brasileira, não tinha chance. [Não, nenhum deles ganhou].
Meu 3. amigo secreto era um “fofo” que me estimulava a continuar como revisora porque eu tinha o olhar supertreinado. Mas era estranho;  quando eu dizia que escrevia, desviava os olhos, mudava de assunto. Reação essa quase unânime  em todos os amigos secretos com que fui esbarrando.

Um amigo secreto me indicava autores tipo Fante, Bukowski ou Caio F. porque eu precisava ter bagagem literária, embora eu já tivesse dito mil vezes que estava numa de  poesia portuguesa e alemã. Meu 4. ou 5. amigo secreto saiu comigo uns dois meses, período no qual fiz questão de não mencionar que escrevia, muito menos que já tinha publicado – para que, né?

Meu 5. ou 6 amigo secreto me conheceu quando eu finalizava o segundo livro. Uma vez pedi sua opinião para cores de capa de um outro livro (que ainda não publiquei), e ele, desconcertado, perguntou se eu ia lançar uma obra “de minha autoria”. Comentei que já tinha um livro de contos – ele não sabia? Mas se ele tinha uma pasta no desktop com fotos garimpadas na minha timeline, como não sabia? Será que tinha pulado as fotos do lançamento do livro, os comentários de parabéns, as resenhas…? Esse amigo, um professor universitário que batia ponto em todas as rodas boêmias da cidade, relaxou quando comentei que o livro era um romance; disse, rindo, que só lia teoria, que para quem pesquisava, ficção era “perda de tempo”. Na época eu não só escrevia como trabalhava em editora, basicamente ajudando outros autores a produzir seus livros – de ficção.

Convivi com esse amigo secreto menos de um mês, o suficiente para ver piscar todos sinais de alerta de gaslighting e  violência psicológica. Apesar de ter desabafado com alguns amigos, ele continua sendo bem recebido em todos os meios, afinal não se deve “meter a colher” e  ele é “um ótimo amigo”; em outras palavras,  sou eu que tenho que evitar festas e bares porque “nada aconteceu”. Como disse uma vez uma amiga advogada; até o cara te bater “nada nunca aconteceu”;  não há muito o que provar, não há nada a fazer além de evitar, além de se esconder.

Hoje não tenho mais amigos secretos.  Mas por que lembrei disso, agora que a hashtag caiu no esquecimento? Porque é final de semestre, escrevo (graças a deus); a cada linha que venço é a voz deles que ouço repetindo que não vou conseguir, é a voz deles que insiste que não sou capaz. Porque é contra a voz deles que eu luto, papel e caneta. Porque cada texto que fecho com orgulho, prazer (ou ao menos alívio) reduz em um decibel o volume dessas vozes – e me mostra que é possível sim calá-los, que é possível sim. Escrever. Ao lado de outras vozes, de outras músicas, outros sons. Ou no silêncio mesmo. É possível e vai sempre ser porque é preciso; porque que quanto mais escrevo, menos força as vozes deles têm.
E no futuro, se minha sobrinha, filha ou qualquer menina quiser ser boa em algo que não seja dança, piano ou canto, não quero que ela esbarre com amigos secretos  – como todas nós.

PS: essas vozes nunca foram mais fortes do que a de todos os homens que sempre me estimularam, começando pelo meu pai – que me deixava ler o que quisesse desde criança, desde Ulysses a Agatha Christie às Flores do mal, passando pelo meu editor e ex-chefe, por vários colegas de turma e amigos queridos, leitores e é claro, aquele que escolhi para estar ao meu lado. ;)

#primeiroassedio – quem se lembra?

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Semana passada, sob a hashtag #meuprimeiroassedio, fomos confrontados com histórias de vergonha, sofrimento, raiva e impotência que a naturalização do machismo e da opressão das mulheres obriga as nossas meninas a passarem. Alguns relatos foram muito dolorosos de ler; muitos homens ficaram surpresos/chocados que, em pleno 2015, esse tipo de agressão ainda seja vivida diariamente por meninas de todas as faixas etárias, bairros e estratos sociais. Claro, para nós mulheres, não foi surpresa nenhuma. Supreendente mesmo foi perceber que é possível fazer barulho, que temos o direito e o dever de sim, fazer um escândalo, e que juntas, nossas vozes têm muito mais força.

Bom, a semana passou e não escrevi nada sobre o meu #primeiroassedio. Não por puder, medo, vergonha, mas por uma razão simples: eu não me lembro. Não tenho a menor ideia de quando aconteceu o primeiro. Três, cinco. sete? Nem faço ideia de quantos anos tinha. Tenho certeza de que muitas mulheres tiveram que arrancar lá do fundo do baú a história mais antiga de que conseguiam se lembrar. Eu não consegui.

Posso não me lembrar do primeiro, mas…me lembro do mais traumático. Como tenho MUITA sorte, o assédio mais violento que sofri não envolveu nenhuma agressão física, nem coação, nem pressão para fazer nada; não foi exercido nem por familiares nem conhecidos. SORTE, até hoje penso. Só que, mesmo com toda a sorte do mundo (para o que contribui o fato de ter nascido branca, de classe média, viver num bairro bom e seguro, estudando numa escola caríssima, ótima e portanto “bem frequentada”(palavra horrível, eu sei) – ou seja, mesmo contando com todo privilégio de classe, e mesmo não tendo sofrido nenhuma agressão direta, ele foi de uma violência simbólica tão forte e gratuita que seus efeitos se arrastam…até hoje.

Tinha doze anos. Era adolescente, no corpo nasciam as primeiras curvas. Fui no shopping com a minha mãe e resolvi, meio reticente, estreiar uma saia jeans vermelha. Estava insegura de que pensassem que eu queria parecer “sexy demais”, mas minha mãe me assegurou que não tinha nada de errado, era só uma saia vermelha numa pré-adolescente, e não estava nem indecente nem curta. Então fui. Mas foi só sair do carro e entrar no shopping para perceber o meu erro.

Fui comida com os olhos por praticamente todos os seres do sexo masculino que passavam por ali.

Veja bem. Tenho perfeita consciência de que nunca fui uma beleza estonteante do gênero de “virar cabeças”; sempre fui mignon, cabelo liso normal, olho e cabelo castanho na pele pálida de falta de sol – nada demais. Chamo atenção por outras qualidades (o que, aliás, sempre me agradou).

Então, quando isso aconteceu, não me senti lisonjeada (como alguns meninos argumentam), nem cogitei a hipótese de que os caras estivessem encantados com a minha aparência. Nada disso. Me senti profundamente invadida. Me senti um alvo ambulante, um pedaço de carne na vitrine, que todo mundo tem direito de olhar, falar sobre, pensar coisas nojentas e verbalizá-las em alto e bom som.

E não havia o que fazer. Com doze anos eu já era madura o suficiente para perceber que os homens não iam mudar – se eu não quisesse mais passar por isso, quem tinha que mudar era eu. Tinha que descobrir alguma forma de fazer com que não me olhassem daquele jeito, não observassem tanto, não encarassem mais.

Como muitas meninas, descobri. Aprendi, ao longo dos anos, a ficar invisível. Fui me aperfeiçoando na técnica com a idade. Dez ou 15 anos depois, já era expert.

A verdade? A verdade é que funciona sim. Enxugando as próprias curvas, você não desperta mais o olhar de desejo e pode andar em paz e liberdade pelas ruas. Ninguém mexe contigo. No máximo para te zoar perguntando qual o caminho pra Auschwitz (aconteceu com uma amiga). Mas é melhor ser considerado alguém esquisito do que uma iguaria ambulante. Era o que eu achava na época.

O problema é que, ao enxugar o próprio corpo, você perde forças e passa a nem ter energia para andar em paz pela casa, que dirá na rua. Mas isso é detalhe. Detalhe mínimo para quem só quer ficar invisível e evitar esse tipo de olhar/invasão. Digamos que, para quem precisa se proteger desse mundo, a falta de energia seja encarada como um dano colateral.

Depois de, sei lá, vinte anos de terapia, aprendi um monte de coisa. A primeira e, talvez, mais importante, é que o jeito com que reagi é estupidamente NORMAL. Frequente. Na terapia de grupo, descobri que a maior parte das meninas que passavam pelo mesmo problema de saúde tinham, lá atrás, quando novas, uma experiência forte de abuso/assédio ou mesmo agressão. Praticamente todas usaram o mesmo mecanismo de defesa – desaparecer – para tentar escapar a esse olhar invasivo. Praticamente todas eram inteligentes e sabiam bem que estavam “overreacting”, como diziam alguns médicos, mas era mais forte do que elas. Controlando a alimentação, controlavam as próprias formas e, por consequência, o olhar dos outros. Com 300 calorias em frutas e vegetais por dia, não demora muito tempo pro corpo ficar numa confortável forma andrógina que não atrai os olhares gulosos masculinos.

Depois que se aprende esse truque, é muito difícil querer voltar atrás – e lidar com os olhares, com os julgamentos, com as gracinhas, como o mundo adulto, com o mundo real. E quando se vê, já se passaram cinco, dez, quinze anos – fica cada vez mais difícil mudar de perspectiva e, portanto, de comportamento.

Agora, adulta, consigo relativizar. Ok, nunca vou ser capaz de andar com uma saia vermelha curta, mas ao menos não me sinto uma sem vergonha que merece ser tratada como iguaria só porque nasceu mulher e tem curvas. Continuo sem orgulho nenhum das formas do meu corpo, rezando para que ele apareça cada vez menos, para que me vejam apenas pela minha mente, alma, ações. Continuo apostando em vestidos fofos e roupas largas. Mas já não me martirizo para desviar a atenção – como todas nós fazíamos (e tantas ainda fazem).

Agora, adulta, penso na minha sobrinha e nos bebês de alguns amigos e meu coração fica logo apertado. Nenhuma menina deveria passar por isso. Nenhuma criança. Nenhuma mulher. Ninguém deveria ter que deixar de viver normalmente para tentar evitar essas agressões e invasões diárias.

Será que alguém dia seremos respeitados por sermos seres vivos, e não por sermos do sexo X ou Y? Porque esse machismo também oprime os homens. E eu não quero criar meu filho respeitando as mulheres e vê-lo sofrer bullying na escola por não ser o “pegador”.

Por isso, quem tiver força para lutar, para tentar mudar consciências, leis e decretos, LUTE. Lute por todas as crianças que sofrem em silêncio, lute por todos os adultos que sofreram tanto em silêncio quando crianças que, agora, já perderam a capacidade de falar sobre o que dói. Só com nossas vozes unidas conseguiremos mudar esse contexto – opressor não só para mulheres, meninas, mas para todos os seres humanos.

Qualquer areia é terra firme – onde comprar

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Na vitrine da Travessa de Ipanema                autografo

O lançamento foi incrível – foi muito bom receber todo o carinho e apoio de leitores e amigos maravilhosos.

Com a autora e amiga Susana Fuentes
Com a autora e amiga Susana Fuentes
IMG_4341
Com Veronica Montezuma e Sofia Soter, da Capitolina
Com Emma Carnhagen
com Rejane Petini
com Rejane Petini

Mas se você perdeu, não tem problema! Deixo aqui o endereço das livrarias físicas e online onde é possível encontrá-lo (em breve coloco mais):

Livraria Travessa (lojas físicas:)

LOJA BARRA SHOPPING: Avenida das Américas, 4.666 – nível américas loja 220, Rio de Janeiro | telefone (21) 2430-8100
LOJA SHOPPING LEBLON: Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon, Rio de Janeiro, 2º piso | telefone (21) 3138-9600
LOJA IPANEMA: Rua Visconde de Pirajá, 572 – Ipanema, Rio de Janeiro | telefone (21) 3205-9002
LOJA BOTAFOGO: Rua Voluntários da Patria, 97 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ, 22270-000 | telefone (21) 3195-0200
LOJA CENTRO – RIO BRANCO: Avenida Rio Branco, 44 – Centro, Rio de Janeiro – RJ, 20090-004 | telefone (21) 2519-9000
LOJA CENTRO – CCBB: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro, Rio de Janeiro – RJ, 20010-000 | telefone (21) 3808-2066
LOJA CENTRO – 7 DE SETEMBRO: Rua 7 de Setembro, 54- Centro, Rio de Janeiro – RJ, 20050-009 | telefone (21) 3231-8015

TRAVESSA ONLINE

Livraria da editora 7Letras
Loja fisica: Rua visconde de Pirajá, 580/320 Ipanema, Rio de Janeiro (3º andar da galeria)

7LETRAS – LIVRARIA ONLINE

Carga Nobre  LIVRARIA ONLINE

Loja física:- Puc-Rio

R. Marquês de São Vicente, 225 – Gávea, Rio de Janeiro – RJ
Telefone:(21) 2259-0195

Qualquer areia é terra firme – lançamento

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

qualquer areia - convite2

Dia 14 de outubro lanço o meu primeiro romance. Passei dois anos escrevendo-o – entre viagens, em igrejas, aeroportos, estações – mas basicamente na minha cama, nas longas noites de insônia. A história se divide em três cidades – São Luís, Rio de Janeiro e Berlim – e entre memórias de um amor deixado na europa, a sensação de ser estrangeiro no próprio país, estranhas descobertas familiares que levam a uma próprio autoconhecimento. Tem heartbreak. Tem risos. Tem drama. Tem meninas aprendendo a serem mulheres e aprendendo a pegar impulso sozinhas – para serem felizes no que e como quiserem, independente do que achem, do que esperem, do que digam.

Espero vocês lá <3

Qualquer areia é terra firme – em breve

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

CAPACortada

“A história é a mesma de sempre”, diz a narradora na abertura do livro, ainda sem saber quantas histórias cabem no futuro – ou mesmo no passado. Personagem em fuga (ou em busca), presa numa espécie de antiexílio depois de voltar ao país natal – com as lembranças (e os amores) de sua temporada europeia ainda ecoando vivamente no presente –, Isabel descobre uma trama novelesca dentro de sua própria família, e aos poucos terá que montar um verdadeiro quebra-cabeças para reconstruir a vida de Juçara, ou Juce – a jovem que lhe sorri de longe, de um velho álbum de retratos.

Com uma prosa certeira e original, Cristina Parga nos leva a experimentar os mais diversos cenários e sabores à medida que nos envolve num enredo de espelhamentos e descobertas.

Enquanto a narradora segue as pegadas de Juçara (para nela encontrar um pouco mais de si mesma), seguimos os passos de Isabel nessa busca – e nela descobrimos também um pouco mais de nós mesmos.

Se qualquer areia pode às vezes ser movediça, assim como é possível ser  quase um estrangeiro em seu próprio país, é no tênue equilíbrio entre as emoções e as vivências que se constrói este belo romance. Antes que se perceba, aquela mesma história já é outra – e estamos irremediavelmente enredados em seus labirintos, como sempre acontece com os bons livros, impossíveis de largar.

Jorge Viveiros de Castro

ser estrangeiro aqui, ali – em qualquer lugar

FacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmailFacebooktwitterpinterestlinkedintumblrmail

Ser estrangeiro é perder restos de bagagem pelo caminho – coisas que só percebemos quando voltamos. Mas, ao mesmo tempo, é ter sempre olhos de criança que acabou de chegar – e, por isso, até uma flor descuidada crescendo sem sentido no asfalto nos prende, até as árvores e seus galhos riscando desenhos contra o horizonte nos encanta. E é aí que se entende que dividir o peito em duas, três, quatro cidades pode até doer – mas vale muito a pena. É aí que se entende que, quando se perde uma cidade, um país, um amor – está-se sempre ganhando. Memórias. História. Intensidade e profundidade no sentir.

Como seria para você estar num lugar onde você não é ninguém? Onde você não tem amigos nem tribo – onde as tuas roupas, os teus livros, filmes, músicas, o teu corte de cabelo etc não significam nada a priori – onde não são símbolos socialmente reconhecíveis. Como seria para você responder todos os dias a perguntar “Como você se chama?” e ouvir o teu nome ecoando vazio de sentido nas bocas que se engasgam ao tentar pronunciá-lo?

Quando eu era pequena, meu pai, que mudou de nacionalidade à força aos 2 anos de idade, me disse que morar fora era como ter o pé esquerdo num país e o direito no outro – e a cabeça no oceano. Para imigrantes pobres, vindos de uma Europa sem oportunidades no pós segunda guerra, crescer era sobreviver entre restos de naufrágio. Era ir para escola e ser sempre conhecido pelo país de origem, não pelo nome próprio. Era comemorar aniversários só com bolos, sem presentes, como os que recebiam as crianças vizinhas. Assistir aos pais fazendo apenas o percurso casa-trabalho, juntando, dia após dia, notas, moedas, latas de comida na despensa, como se à espera de um terremoto, como se à espera da próxima guerra, da próxima vaga de fome. Fechados em suas salas em seus almoços e jantares sempre iguais – sopa, massa, galinha criada no quintal – eles tentavam ser autossuficientes. No fundo, eram autoabsorvidos. Como se não pudessem contar com nada além de si próprios na terra estranha em que aportaram.

Ao contrário do meu pai, escolhi ser estrangeira. Decidi sozinha imigrar. Não pela fome, pela guerra, mas pelo motivo que move qualquer jovem de classe média alta desse Brasil cosmopolita: a sede de aventura. A vontade de se jogar, conhecer pessoas novas, sotaques estranhos, viver o mundo em sua plenitude. Crescemos com tv a cabo e internet e sabemos desde criança – o mundo é muito maior do que a nossa cidade e suas referências. A gente parte com fome de novidade – e entramos no avião sorrindo, passaporte na mão e peito aberto para o que vier pela frente, sem olhar para trás. No início parecia uma grande aventura – 18 anos sozinha num país estranho, onde ninguém sabia meu nome, origem social, a escola onde eu estudei e todos os outros símbolos que nos definem. Era plena liberdade. Eu podia ser quem eu quisesse, na época da vida em que ainda estamos tentando descobrir quem queremos ser. Uma experiência indescritível.

Mas os anos foram passando.

E eu continuava estrangeira.

Com o passar dos anos, aumentavam as despedidas: amigos – irmãos partiam do nada para outro canto do mundo, namoros eram rompidos pela distância, sorrisos embaçavam-se em fotos antigas com pessoas que já não sabia (algumas nem sei) para que parte do mundo iam. Só ter radares, sem raízes, começou a ser cada dia mais difícil.

E me vi como meus avós – comendo tofu com coca-cola zero, como se não pudesse contar com nada de substancial naquela Terra que, sem grandes amigos, sem família, virou estranha. Reunindo lembranças, rabiscos e sonhos, como se à espera do próximo terremoto – como se meu mundo interno subterrâneo fosse a única terra firme. Mesmo sendo solo vulcânico.

Dez anos depois, voltei para casa. Que casa? Meu país natal não me recebe. Continue lendo ser estrangeiro aqui, ali – em qualquer lugar