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Menção honrosa no VII Prêmio Paulo Britto

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Os textos vencedores do VII Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia, já estão lá no blog do Plástico Bolha. Tem o “Tireoide”, vencedor de poesia, da Maíra Fernandes de Melo e o
“A casa Queima”, (prosa), da Clarisse Zarvos – ambos mais que merecidos!

E tem também “Extração de minérios” um poema meu que ganhou menção honrosa.
É, um poema – também ainda não me recuperei do choque.

Segue abaixo para quem tem preguiça de abrir link:

Extração de Minérios

Toda palavra
pedra bruta

Toda palavra
minério explode

jazidas

lavra
até o fino brilho do metal
precioso da terra

[e permanece selada
sem poros – rocha]

Leia todos os textos vencedores aqui 

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Angélica

Desligo o telefone e tento processar sonho, notícia, mas não consigo. Sentir nada. Fico estática. Olho para a jarra e vejo os botões murchando, flores que nunca se abrirão, nunca mais. Daquelas já abertas despencam pétalas, uma, duas, oito, conto – analisando perdas e danos. As que resistem me olham em desafio, exalando esse perfume que não distingo mais do meu. Corro para o espelho –meus olhos também estão pequenos, ferinos, como essas pequenas estrelas que guardam um mistério podre em seu núcleo. Intuitivamente tiro toda a roupa e me enfio num banho, esfrego a pele até arranhá-la mas não consigo me ver livre desse odor, dessas pétalas, das promessas desses botões que murcham. Não consigo me livrar porque a seiva já corre aqui dentro como sangue, nutrindo órgãos e cabelos que caem pelo azulejo azul do box em teias labirínticas de aranha.

Acontece às vezes

Sabia que a culpa era sua, sempre foi. Ela que não quis enfrentar fatos, que compreendeu além do compreensível. Ela que acreditou em cabeleireiros, em vestidos. Que acreditou em algum controle. Fecha o armário – de que vale tantas roupas – mas não consegue chorar, o choro também não tem porquê. A ferida não sangra, mas reabre a cada movimento mínimo lembrando que o melhor é ficar parada – como se, imóvel, o mundo não girasse, não se movesse sob os seus pés.

   Os afogadosum passatempo

No sonho vivíamos perto da praia. Perto de uma falésia de onde as pessoas se atiravam. Toda a semana. Pelo menos um ou dois por mês. Aquilo se tornou um passatempo: passeávamos na beira d’àgua à procura dos corpos que davam à costa – tocávamos fascinados a pele fria azulada e examinávamos os olhos baços, revirados.

 

Alien land

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The cold dolma at the counter of the improvised Turkish bar at the fair. Children running amidst the tables, veiled girls sporting gloss on their lips and pink nails tapping on hyperactive phones. Fifteen-year old Arab queens. Hot tea creating moist on the glass, awakening the ice-cold fingers one by one. Memory, too, awakens when least expected — just like warm water over skin, only a few seconds may lie between relief and pain.
Mirror fragments behind the bar counter are suddenly united, reflecting the strange image of a look I do not recognise, a look that does not recognise me. I leave €2.50 and go out. On the other side of the street, I am attracted by earthly red saffron and couscous on the stand of the girl in a green scarf who smells of cumin. Incense — I do not know the smell, but I know it — the feeling follows me through the fair in every look, in every step within this labyrinth of colour and taste, in every new word I do not understand. Dark eyes which find me strange and cannot read me. I come from myself, what about you, are you from here? Is the city already yours or is already impossible to distinguish the two of you? Home, native land. Postcards without sending addresses. Without a receiving address, a date. Without sense.
[People do not move outside the fair, stuck to their coats.]
Woher kommen Sie?, the question I never grasp. I stutter and try, in the seconds that last centuries, to find out what is the best place for me to come from at that moment. Or from where I feel like I come from, at this one.
from “Furta-cores”, (7Letras, 2012). Translated by Pedro Sette-Câmara