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Dona Guida e o melhor presente do mundo

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Dona Guida, que prefere maçãs a livros
Dona Guida, que prefere maçãs a livros

Ontem fui na casa da minha avó. Depois de olhar com tristeza a roseira cortada, reparar no jasmim manga plantado em cima da antiga árvore de romãs, observar o canto abandonado onde antes ficava o puleiro das galinhas – aquelas que acabavam no almoço de domingo – fui finalmente conversar com minha gramma.

Eu e Dona Margarida temos, digamos, alguns issues. Tudo começou quando eu era criança e ela atacou minha mãe por não ser portuguesa. Depois eu descobri que ela matava as galinhas que eu vi crescer para nos servir no almoço de domingo (obrigada vovó, por sua causa sou vegana). Mais tarde, quando eu tinha 17 anos e fazia as provas de acesso para a universidade em Portugal, tive que dormir no mesmo quarto que ela, na casa velha e mal assombrada da bisavó – onde havia aranhas incrivelmente grandes passeando pelo teto e pulgas literalmente comendo a minha pele. Dona Guida roncava a noite inteira e ainda me  me proibiu de comentar sobre as pulgas com a dona da casa, sua irmã, que ia morrer de vergonha.  Oh yeah, fuck my legs).

FOI UM MÊS MUITO INTENSO. A mania irritante que ela tinha de pedir sempre o mesmo que eu num café ou restaurante – e como eu me divertia ao pedir pro garçom trocar a minha bebida só na última hora (ela ficava completamente frustrada). Aquela vez que fomos visitar uma tia-avó e  ela resolveu cortar caminho pela estrada velha – no meio da linha do trem. Vó, você é louca, eu não vou andar quilômetros debaixo do sol e cruzar a pé os trilhos, o trem pode passar – não adiantava, a teimosa caminhava mais rápido que eu, que me arrastava para acompanhar o ritmo. Não tinha a menor ideia de onde estava ou de como voltar (não havia celulares, gps e outros salva-vidas na época). Eu morria de sede, cansaço, calor e não havia nem casa nem seres no horizonte – só o vulto rápido da vovó recém viúva, toda de preto. Não avancei pra cima dela dessa vez  – devia estar muito exausta para isso.

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Desolée, Paris

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Give Paris one more chance

Da janela as árvores choram uma ramagem estranha, folhas amarelas mancham o tapete escuro do chão. O banco de madeira cheira a cola, um odor cru penetrando as narinas e correndo até o pulmão à velocidade do frio. Essa cidade não me engana: ela se move silenciosa por detrás da névoa, num passo tão lento que me canso de olhar. Essa cidade não me inspira. O que move o olhar, aqui, é o degradée – o rouge das pedras da muralha romana, o ferrugem das folhas na porta da igreja de saint anne, o tom morango no chantilly das faces infantis – o rosée da cidra até o aveludado bordeaux. Ou o cereja dos tomates no canteiro, entre as rosas pequeninas.
Nada me move, nada me toca nesse silêncio enregelado em que ecoam todos os passos na rua. Nada me encontra.

Só o cheiro de chocolate e esgoto no metrô. Os cafés, sempre com croissants e pães que cheiram a manteiga e gordura e garçons antipáticos, os imigrantes me sacando, indo e vindo sem lugar, parados na esquina à espera.
Essa cidade não me engana, nunca.

Para ler ouvindo https://goo.gl/iDVRyn

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