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Wishwanderer

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Do outro lado da cama, a caixinha vela o seu sono calada, conchas e pérolas e opalas multicores no róseo útero de cetim. Quieta, a caixinha com suas joias, quieta como o fundo do mar. Mas a menina sonha com avenidas largas e barulhentas, céu embranquecendo o chão de pedras deslizantes pela calçada, geladas pelo inverno. A menina sonha e no sonho as janelas se partem crepitando pelo quarto, ferindo os lençóis em pequenas estrelas sem sentido. If my heart freezes I wont feel the breaking. Dedos distraídos tocam a caixa, erguem a tampa ante o rosto sobre o travesseiro: a música toca e a bailarina desliza, rodopia no espelho de gelo, roda incessante – a caixinha fecha e abre, fecha e abre para olhos gulosos, molhados de sono. E a bailarina tonta não comanda os passos, não manda nos músculos. E a bailarina tonta, os pés se movem sozinhos, sem nunca tocar o chão.

Mirrors and Frames

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Quando ela se olhava ao espelho – ele ao fundo  – ela não via mais nada. Nada além do olhar do outro. Aquele olhar de ontem, de anteontem, de amanhã, que aderia à pele como gosma – aquele olhar que já estava com ela, no fundo dos seus olhos, no entreabrir dos lábios, no gestual dos dedos alisando o cabelo. E eram tantos olhares, desejos e miniaventuras de um segundo que não significavam nada porque não aconteciam no real mas que se colavam a ela, crescendo como subcamadas – e o espelho estranhava, estranho.  E ele, ao fundo, ele estranhava, estrangeiro – ele não reconhecia.

Noturno

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Sonho com ondas, terremotos, ciclones, Percorro (percorremos) escombros procurando abrigo. Do alto de uma rocha (rocha: pedra pura, estável) vejo o recuar das ondas, observo como elas se arrastam para trás, como se para tomar impulso.

Mas não se pode ficar circunscrita a uma rocha. É preciso descer a colina, lutar contra a correnteza, afundar os pés na terra e fincar – ficar. Como todos fazem. Ancorar para ser um – lutar para não se diluir na miragem das ondas. Para ser um, mesmo sendo só mais uma, nada além.

 

Os 15

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Tenho 15 anos, estou indo pra Cambridge. Todos os casacos saem do armário para a mala, nada será quente o suficiente. Trinta dias sozinha. (Os primeiros).

Na escola de línguas, tenho 15 anos e o professor-coordenador é constrangedoramente muito mais alto que eu. Lá do alto, ele diz que não sabe se devo pular para o nível avançado: a minha parte escrita é outstanding, mas, pela conversação, eu deveria estar no básico. Digo que o mesmo acontece na minha língua mãe, o português. Ele diz que sou engraçada.

A professora chama meu nome na classe ao entregar as redações – gostou do conto sobre a Elisa. Você deveria ser escritora, ela diz. Ela é vesga – levo alguns segundos tensos até perceber com quem ela fala, se comigo ou com o colega do meu lado.

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