(COMO) FICAR SOZINHO

Como as antigas chinesas, minutos a sós debaixo d’água caçando pérolas, há um ganho em se mergulhar fundo no próprio mundo interno. Há um ganho em se estar sozinho. Sozinho, digo, sem ninguém à volta — independente de ter namorados, família, ou 6 flatmates. 
Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções. 
E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. E nos atravessa, preenche, assombra – como pérolas, nos encanta. Como se sentir só depois desse encontro?

Crédito foto: Iwase Yoshiyuki| Fonte: ideiafixa.com

Nas aldeias costeiras da China, por cerca de 2.000 anos, mulheres mergulhavam no fundo do Pacífico quase nuas em pelo, com apenas uma máscara e nadadeiras. As águas eram gélidas e as meninas (como sempre, treinadas bem cedo), ficavam minutos debaixo d’água, repetindo o mergulho mais de 50 vezes por dia. Não vou encher essa página de fotos lindas de chinesas de topless; mas há que se admirar a capacidade respiratória, o foco e a dedicação de quem consegue suportar o que é delicioso por breves instantes e, em questão de segundos, vira tortura: o mergulho.

Tortura ou prazer, eu não conseguiria viver sem treinar meus pulmões para aguentarem o máximo que puderem esse momento único, em que a pele é a nossa única fronteira com o azul. Nada se ouve além do murmurejar das águas (ou o bater do nosso coração?) e ficamos livres da gravidade, sociedade e outras amarras, inteiros com nós mesmos. Plenos.  Não estou fazendo aulas de mergulho nem de natação. Estou falando de ficar sozinha, num espaço que te envolve e separa da Terra. Como o fundo do mar. Ou debaixo d’água, perto da superfície, onde vemos o mundo externo por um prisma próprio, onde ele é que parece irreal.

Por voltas da vida, sempre passei muito tempo só. Só, digo, sem ninguém fisicamente à volta — independente de ter alguém pra chamar de meu amor ou de viver numa casa com 6, 7 flatmates. Mesmo numa relação, sempre a insônia me puxa da cama para momentos de plenitude comigo. Ou nos transportes públicos. Ou simplesmente ao andar de fones de ouvidos na rua.  Ou ao abrir um caderno e escrever.

A verdade é que gosto da solidão. Preciso. Adoro estar com pessoas — amigos e/ ou grupos grandes animados, com gente falando alto, bebendo, dançando. Adoro carnaval. Sou tímida, mas isso é característica pessoal, não diagnóstico. Adoro estar em grupo, mas poucas vezes esses momentos me preenchem tanto quanto aqueles em que estou eu comigo, meu caderno e meu mundo interno. Sem ninguém para furar nossa bolha e esvair sua atmosfera de endorfina. Um mundo interno amplo, livre, confortável como um cobertor quentinho de opioides, benzodiazepinas. Ou, por vezes, doloroso como um colchão de pregos. Mas intenso. Genuíno. Vivo.

Talvez algumas pessoas tenham uma tolerância maior à solidão. Eu aguento bem. Ou talvez precise. Porque há um ganho em se estar sozinho. Subestimado, mas está ali. Eu percebo. E devo ter percebido desde jovem, porque é nessa ficha que tenho investido minhas economias. Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções. E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. E nos atravessa, preenche, assombra – como pérolas, nos encanta. Não acontece toda hora, não há a menor certeza de que irá acontecer; é como um eclipse, meio raro. Mas depois que se vive esse encontro, fica difícil não esperar por ele. Porque essa espera alimenta qualquer vazio, vai colorindo de significado o silêncio, povoando as manhãs preguiçosas, as tardes lentas, o por do sol que nunca mais.  É tentador trocar qualquer experiência externa por esse mergulho num submerso mundo de isolamento. Mas há um tempo limite.  E condições limitantes também.

Não se mergulha em mar revolto ou quando há tempestade, embora, muitas vezes, as águas ainda pareçam o único refúgio. É preciso cuidado. É preciso lembrar dos que ficaram ali presos, pra sempre; é preciso saber voltar. Quando há alguém (companheiro(a), família, o que for) que se ama à nossa espera aqui do lado de fora, é mais fácil vir à tona. Com pérolas e pedras brilhantes, os olhos cheios de histórias para partilhar. Mas repito. É preciso saber voltar.

Publicado originalmente em: https://medium.com/@cristinaparga
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AS MULHERES DE FRANCESCA

Em 1981, com apenas 22 anos, Francesca Woodman suicidou-se – deixando uma obra fotográfica composta maioritariamente por autorretratos femininos, impenetráveis e, ao mesmo tempo,fantasmagoricamente irresistíveis. Como num jogo de sedução, a modelo se esconde e revela pela lente da câmera, capturando uma infinidade de mulheres que nos observam de algum espaço-tempo a que não temos acesso – que nos encaram quase no milésimo de segundo antes de se dissolverem e escaparem à nossa compreensão.

Quase como um statement do feminino. Nos autorretratos de Francesca Woodman, o corpo escorre em traços contínuos, fluidos – ilusórios – camuflando-se no background como um objeto decorativo, imóvel – porém pulsando em movimento. Desnudando-se para a câmera, as mulheres de Francesca transcendem o real e secretam, ante o observador atônito, a seiva de uma vida interior, hipnótica e turva. Os flashes de luz captam relâmpagos da psiche aflorando à superfície da pele. A psiche difusa, silente, fugidia.


A mulher erva daninha, intensa e inteira, sublunar. Quieta e escura como a pérola, que se desenvolve lenta e anônima no interior ósseo das ostras. A mulher sem nome, que empresta seu corpo ao ethos do ambiente, deixado-se invadir pelas rugas da parede, a poeira do chão, a casa em ruínas. Que, como mariposa noturna, se deixa confundir com a textura rugosa dos troncos de árvores – para preservar de olhares, mãos e prisões, o seu viver subterrâneo.


Francesca Woodman imprime, no filme fotográfico, imagens do feminino inconsciente que encanta, envenena, enlouquece o observador e o modelo. Seus retratos caminham da exploração tátil do corpo e do entorno para a gradual fusão entre os dois. Testemunhando, em imagens simbólicas, toda violência desse “encontro”.

Essas femmes nos surpreendem num segundo de deslocamento do vazio à volta, que ocupa, preenche e possui, infalivelmente, todos os sítios da sua alma. Elas nos olham no milésimo de segundo antes da destruição, quando irão cumprir o destino da lenta dissolução e desaparecimento.

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