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Furta-cores em Portugal

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Descobri por acaso que a Ana Lopes, autora do blogue literário O sabor dos meus livros escreveu essa resenha no link sobre o Furta-cores, meu primeiro livro de contos.
Feliz por ver o caminho de volta desse livro a Portugal, meu canto, e onde vários contos foram rascunhados; ver esse livro-barquinho remando e encontrando seus leitores ainda que sozinho, sem agente, nem gente, nem grande máquina editorial para dar aquela ajudinha

um pouquinho do texto da Ana:
“Desde as primeiras palavras do primeiro conto somos atingidos pelo poder, poesia e magia da escrita desta autora brasileira. A doçura, a sonoridade, os cheiros e a ternura que transportam as palavras que escreve e combina são memoráveis e fizeram com que fosse sublinhando e anotando trechos de uma beleza e sensibilidade que eu considero perfeitas, porque nos entram na alma e tocam no nosso lado mais íntimo e emotivo.”

+ aqui 

(atenção: deem uma olhada pelo blogue, a Ana dá dicas preciosas de leitura, e as resenhas são sensíveis, sinceras e críticas, com um olhar agudo e generoso, sem crueldade gratuita. Os leitores e autores agradecem: )

ser estrangeiro aqui, ali – em qualquer lugar

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Ser estrangeiro é perder restos de bagagem pelo caminho – coisas que só percebemos quando voltamos. Mas, ao mesmo tempo, é ter sempre olhos de criança que acabou de chegar – e, por isso, até uma flor descuidada crescendo sem sentido no asfalto nos prende, até as árvores e seus galhos riscando desenhos contra o horizonte nos encanta. E é aí que se entende que dividir o peito em duas, três, quatro cidades pode até doer – mas vale muito a pena. É aí que se entende que, quando se perde uma cidade, um país, um amor – está-se sempre ganhando. Memórias. História. Intensidade e profundidade no sentir.

Como seria para você estar num lugar onde você não é ninguém? Onde você não tem amigos nem tribo – onde as tuas roupas, os teus livros, filmes, músicas, o teu corte de cabelo etc não significam nada a priori – onde não são símbolos socialmente reconhecíveis. Como seria para você responder todos os dias a perguntar “Como você se chama?” e ouvir o teu nome ecoando vazio de sentido nas bocas que se engasgam ao tentar pronunciá-lo?

Quando eu era pequena, meu pai, que mudou de nacionalidade à força aos 2 anos de idade, me disse que morar fora era como ter o pé esquerdo num país e o direito no outro – e a cabeça no oceano. Para imigrantes pobres, vindos de uma Europa sem oportunidades no pós segunda guerra, crescer era sobreviver entre restos de naufrágio. Era ir para escola e ser sempre conhecido pelo país de origem, não pelo nome próprio. Era comemorar aniversários só com bolos, sem presentes, como os que recebiam as crianças vizinhas. Assistir aos pais fazendo apenas o percurso casa-trabalho, juntando, dia após dia, notas, moedas, latas de comida na despensa, como se à espera de um terremoto, como se à espera da próxima guerra, da próxima vaga de fome. Fechados em suas salas em seus almoços e jantares sempre iguais – sopa, massa, galinha criada no quintal – eles tentavam ser autossuficientes. No fundo, eram autoabsorvidos. Como se não pudessem contar com nada além de si próprios na terra estranha em que aportaram.

Ao contrário do meu pai, escolhi ser estrangeira. Decidi sozinha imigrar. Não pela fome, pela guerra, mas pelo motivo que move qualquer jovem de classe média alta desse Brasil cosmopolita: a sede de aventura. A vontade de se jogar, conhecer pessoas novas, sotaques estranhos, viver o mundo em sua plenitude. Crescemos com tv a cabo e internet e sabemos desde criança – o mundo é muito maior do que a nossa cidade e suas referências. A gente parte com fome de novidade – e entramos no avião sorrindo, passaporte na mão e peito aberto para o que vier pela frente, sem olhar para trás. No início parecia uma grande aventura – 18 anos sozinha num país estranho, onde ninguém sabia meu nome, origem social, a escola onde eu estudei e todos os outros símbolos que nos definem. Era plena liberdade. Eu podia ser quem eu quisesse, na época da vida em que ainda estamos tentando descobrir quem queremos ser. Uma experiência indescritível.

Mas os anos foram passando.

E eu continuava estrangeira.

Com o passar dos anos, aumentavam as despedidas: amigos – irmãos partiam do nada para outro canto do mundo, namoros eram rompidos pela distância, sorrisos embaçavam-se em fotos antigas com pessoas que já não sabia (algumas nem sei) para que parte do mundo iam. Só ter radares, sem raízes, começou a ser cada dia mais difícil.

E me vi como meus avós – comendo tofu com coca-cola zero, como se não pudesse contar com nada de substancial naquela Terra que, sem grandes amigos, sem família, virou estranha. Reunindo lembranças, rabiscos e sonhos, como se à espera do próximo terremoto – como se meu mundo interno subterrâneo fosse a única terra firme. Mesmo sendo solo vulcânico.

Dez anos depois, voltei para casa. Que casa? Meu país natal não me recebe. Continue lendo ser estrangeiro aqui, ali – em qualquer lugar